Entre a fé e a consciência, quando a religião deixa de libertar

Mãos acorrentadas diante da cruz dentro de uma igreja, simbolizando quando a religião deixa de libertar a consciência

A fé deveria ampliar a consciência, não reduzi-la. Essa afirmação não é uma concessão ao espírito do tempo, mas uma exigência do próprio evangelho quando levado a sério. A fé cristã nasce de um chamado à escuta, escutar Deus, escutar a realidade, escutar o outro e escutar a própria consciência. Onde essa escuta é interrompida, algo essencial se perde. Não se perde apenas a sensibilidade espiritual, perde-se a capacidade de discernir quando a fé deixa de ser caminho e passa a ser instrumento.

John Stott, em Ouça o Espírito, ouça o mundo, lembra que o cristão fiel não é aquele que se isola do mundo nem aquele que se dissolve nele, mas o que vive na tensão responsável entre revelação e realidade. Para ele, ouvir o Espírito sem ouvir o mundo produz alienação religiosa, e ouvir o mundo sem ouvir o Espírito resulta em perda de identidade cristã. A maturidade espiritual surge exatamente nessa escuta dupla, crítica e consciente, que se recusa tanto ao enclausuramento quanto à assimilação acrítica.https://www.ultimato.com.br/conteudo/stott-em-5-minutos-ouca-o-espirito-ouca-o-mundo

O problema começa quando a religião abandona essa tensão e passa a operar por mecanismos de controle. Entre eles, o medo sempre foi o mais eficaz. O medo organiza comportamentos, silencia perguntas e cria obediência sem necessidade de convencimento. Quando a religião passa a controlar pelo medo, pela culpa ou pelo silêncio imposto, ela deixa de cumprir sua função espiritual e se transforma em um sistema de poder. Nesse ponto, a fé já não forma consciências, ela fabrica submissão.

O medo religioso raramente se apresenta de forma explícita. Ele se disfarça de zelo, de fidelidade, de cuidado espiritual. Medo de errar, medo de questionar, medo de perder a salvação, medo de decepcionar Deus, medo de ser excluído. Aos poucos, a experiência de fé deixa de ser encontro e se torna vigilância constante. A pessoa já não vive diante de Deus, vive sob observação. A espiritualidade passa a ser administrada como risco.

John Stott alertava que a fé cristã nunca foi chamada a suprimir a razão ou a consciência, mas a iluminá-las. Uma fé que exige a suspensão do pensamento não é fé bíblica, é medo sacralizado. Onde pensar se torna suspeito, a fé já foi substituída por um sistema de autopreservação. A religião, nesse estágio, não protege o mistério, protege a si mesma.

Questionar não é rebeldia, é maturidade. Pensar não é pecado, é responsabilidade. A própria Escritura nasce do diálogo, do conflito e da reflexão profunda sobre a experiência humana diante de Deus. Jó questiona o silêncio divino, os salmistas protestam contra a ausência de respostas, os profetas confrontam sistemas religiosos que oprimem em nome da lei, e Jesus rompe com interpretações que usam a religião para esmagar pessoas. O Novo Testamento revela uma fé viva, que responde ao mundo real, não uma crença enclausurada em fórmulas imunes à realidade.

Do ponto de vista teológico, Stott sempre defendeu que a autoridade das Escrituras não elimina a responsabilidade da interpretação consciente. Pelo contrário, ela a exige. O cristão contemporâneo, segundo ele, precisa pensar biblicamente sobre questões contemporâneas, não repetir respostas prontas para perguntas que já não estão sendo feitas. Isso exige humildade intelectual, escuta atenta e coragem espiritual, virtudes raras em ambientes onde o controle se impõe pelo medo.

A espiritualidade que não suporta perguntas não forma pessoas livres, forma seguidores condicionados. Seguidores que obedecem mais por temor do que por convicção. Esse tipo de formação produz culpa crônica, dependência emocional e fragilidade ética. A pessoa aprende a medir sua fé pelo grau de submissão, não pela capacidade de discernimento. Sistemas religiosos baseados em controle tendem a enfraquecer a autonomia moral do indivíduo, pois quanto menos consciência existe, mais fácil é manter a ordem.

Há aqui uma autocrítica necessária. O problema não está apenas nas instituições ou nos líderes. Todos nós somos tentados pelo conforto do controle. O medo oferece respostas rápidas, alívio imediato e pertencimento. Pensar exige tempo, conflito interno e responsabilidade. Por isso, muitas vezes, preferimos uma fé que manda do que uma fé que chama à maturidade. O controle seduz tanto quem exerce quanto quem se submete a ele.

John Stott via a consciência cristã como um espaço sagrado de responsabilidade diante de Deus. Não uma consciência autônoma no sentido relativista, mas uma consciência desperta, informada pelas Escrituras e sensível ao sofrimento humano. Para ele, fidelidade a Cristo nunca significou cegueira moral nem silêncio diante das injustiças. Onde a fé é segura, a consciência não é ameaça, é aliada.

Entre a fé e a consciência não deveria haver oposição. O conflito surge quando a religião teme a consciência porque depende do controle. Onde a fé é saudável, a consciência é bem-vinda. Onde a verdade é viva, as perguntas não ameaçam. A fé madura não precisa se proteger da realidade, ela a atravessa.

Ouvir o Espírito e ouvir o mundo é um chamado exigente. Ele desmonta certezas fáceis, confronta estruturas rígidas e expõe idolatrias religiosas, inclusive as mais respeitáveis. Mas é justamente nesse caminho que a fé deixa de ser instrumento de poder e volta a ser espaço de libertação. Onde a consciência é respeitada, a fé amadurece. Onde ela é sufocada, resta apenas adaptação, e adaptação não transforma, apenas mantém tudo exatamente como está.


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