Após Jerusalém e Niceia, a Igreja entra em uma nova fase da sua história. O cristianismo já não é apenas tolerado, ele agora caminha rapidamente para se tornar a fé dominante do Império. É nesse contexto que acontece o terceiro grande concílio da história, o Concílio de Constantinopla, no ano 381 d.C.
Se Jerusalém lidou com a inclusão dos gentios e Niceia com a identidade de Cristo, Constantinopla enfrenta uma pergunta igualmente decisiva, quem é o Espírito Santo e qual é o seu lugar na fé cristã?
Essa questão, embora pareça técnica, toca diretamente a vida da Igreja, a experiência da fé e o modo como o cristianismo seria vivido dali em diante.
O problema que levou ao Concílio de Constantinopla
Depois de Niceia, a Igreja não encontrou paz imediata. O arianismo continuou se espalhando sob novas formas, e outra controvérsia surgiu, grupos passaram a negar a plena divindade do Espírito Santo.
Esses grupos, conhecidos posteriormente como pneumatomáquios, afirmavam que o Espírito era uma força, uma energia divina ou uma criatura subordinada, mas não Deus em plenitude.
As perguntas eram inevitáveis:
O Espírito Santo é uma pessoa ou apenas um poder?
Ele é Deus ou um agente criado?
A vida cristã depende de um Espírito plenamente divino ou isso é secundário?
Para comunidades majoritariamente gentílicas, essas questões eram centrais, pois toda a experiência cristã estava ligada à ação do Espírito, conversão, santificação, dons e vida comunitária.
A convocação do concílio e a ampliação do Credo
O Concílio de Constantinopla foi convocado pelo imperador Teodósio I e reuniu líderes da Igreja oriental. Ele não cria um novo credo do zero, mas amplia e reafirma o Credo Niceno, dando origem ao que hoje é conhecido como Credo Niceno-Constantinopolitano. https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro_Conc%C3%ADlio_de_Constantinopla
Aqui já se percebe uma mudança clara em relação a Jerusalém. O concílio não nasce de uma comunidade local enfrentando um problema missionário, mas de uma Igreja cada vez mais ligada ao poder imperial e à necessidade de uniformidade doutrinária.
Textos bíblicos usados para afirmar a divindade do Espírito Santo
As decisões de Constantinopla se apoiaram fortemente nas Escrituras, especialmente em textos que mostram o Espírito como agente pessoal e divino.
Um dos textos centrais foi:
“Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas” (João 14:26).
O Espírito não é apresentado como força impessoal, mas como alguém que ensina, guia e fala.
Outro texto decisivo foi:
“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3:16).
Paulo associa diretamente o Espírito à presença de Deus, algo que, no pensamento bíblico, não pode ser atribuído a uma criatura.
Também foi usado:
“O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Coríntios 3:17).
A identificação direta entre Senhor e Espírito reforça sua divindade e autoridade.
Além disso, a fórmula batismal foi fundamental:
“Batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19).
A igualdade na fórmula aponta para igualdade de natureza, não apenas de função.
As principais decisões do Concílio de Constantinopla
O concílio afirma claramente que o Espírito Santo é Senhor e doador da vida, que procede do Pai e é adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho.
Essa definição protege a fé cristã de se tornar apenas cristocêntrica no discurso, mas vazia na experiência. Sem um Espírito plenamente divino, a vida cristã se tornaria moralismo ou filosofia religiosa.
Para os gentios, isso foi decisivo. A fé cristã se consolidou como uma experiência viva, espiritual e comunitária, não apenas como adesão intelectual a dogmas.
Pontos fortes do Concílio de Constantinopla
Entre os pontos fortes, destacam-se:
A defesa da plena divindade do Espírito Santo
A preservação da experiência cristã como obra de Deus, não apenas esforço humano
A consolidação de uma fé trinitária coerente com o testemunho bíblico
A proteção da vivência dos gentios contra reduções racionais da fé
Nesse sentido, Constantinopla fortalece aquilo que Jerusalém inaugurou, uma fé acessível a todos, sustentada pela ação direta de Deus.
Pontos fracos e sinais de desgaste espiritual
Ao mesmo tempo, o concílio revela um avanço preocupante da institucionalização. A fé começa a ser definida cada vez mais por fórmulas oficiais e menos pela vida comunitária simples das origens.
A autoridade espiritual passa a se confundir com autoridade política. Divergências já não são apenas debatidas, mas reprimidas. A Igreja começa a falar em nome da verdade, mas a ouvir menos o Espírito que afirma defender.
Aqui se percebe, de forma ainda sutil, o caminho que levará ao catolicismo institucionalizado, uma estrutura que preserva doutrina, mas muitas vezes engessa a vida espiritual, transforma fé em sistema e substitui discernimento por hierarquia.
A Igreja entre a revelação e o risco humano
Constantinopla deixa uma lição clara. Mesmo defendendo verdades bíblicas profundas, a Igreja continua sendo formada por seres humanos limitados.
A Bíblia estava presente.
Os textos eram corretos.
As conclusões, em grande parte, eram fiéis às Escrituras.
Ainda assim, o risco de perder o espírito do Evangelho cresce à medida que o poder cresce.
A história mostra que não basta ter a Escritura, é preciso permanecer sensível àquilo que ela produz, humildade, serviço e dependência de Deus.
Um concílio que fortalece e alerta
O terceiro concílio da história fortaleceu a fé cristã ao afirmar a divindade do Espírito Santo e proteger a experiência espiritual da Igreja.
Mas também deixou um alerta que ecoa até hoje, quanto mais a fé se aproxima do poder, mais vigilância ela exige.
Desde o início, a Igreja enfrentou seus problemas. Algumas vezes com coragem e discernimento, outras com medo e controle. Constantinopla mostra que a verdade pode ser preservada, enquanto o coração humano começa lentamente a se perder.
Esse concílio não encerra a história da fé. Ele aprofunda a doutrina, mas também aprofunda o desafio, permanecer fiel ao Evangelho em meio às estruturas que os próprios cristãos constroem.
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