Após Jerusalém, Niceia, Constantinopla, Calcedônia e os dois concílios posteriores em Constantinopla, a Igreja chega ao sétimo grande concílio da sua história, o Segundo Concílio de Niceia, realizado no ano 787 d.C.
Aqui, o debate já não gira diretamente em torno da natureza de Cristo ou da Trindade, mas sobre como a fé deve ser expressa, preservada e mediada visualmente. O tema central é o uso de imagens no culto cristão, especialmente ícones.
Esse concílio revela com clareza um novo estágio da história da Igreja, a transição entre a defesa da fé bíblica e a construção de práticas religiosas que, pouco a pouco, começam a deslocar o foco do Evangelho para formas externas de devoção.
O problema que levou ao Segundo Concílio de Niceia
Durante os séculos anteriores, o uso de imagens religiosas havia se espalhado amplamente no cristianismo, sobretudo entre comunidades gentílicas, acostumadas a expressões visuais de fé. Para muitos, as imagens serviam como memória, ensino e auxílio devocional.
Por outro lado, surgiram fortes reações iconoclastas, que viam essas práticas como uma ameaça direta ao monoteísmo bíblico e uma aproximação perigosa da idolatria.
As perguntas que dividiam a Igreja eram profundas:
Imagens podem ser usadas sem se tornarem ídolos?
A veneração visual compromete a centralidade de Deus invisível?
Onde termina a pedagogia e começa a substituição do Evangelho?
Essas questões afetavam diretamente os gentios, pois muitos vinham de culturas profundamente imagéticas e corriam o risco de reinterpretar o cristianismo a partir de categorias religiosas anteriores.
As bases bíblicas evocadas no concílio
O concílio recorreu às Escrituras para justificar o uso de imagens, ainda que de forma indireta.
Um dos textos frequentemente citados foi:
“O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14).
O argumento era que, se Deus se tornou visível em Cristo, a representação visual não seria, em si, uma negação da fé, mas uma consequência da encarnação.
Outro texto usado foi:
“Quem me vê a mim vê o Pai” (João 14:9).
Essa afirmação era interpretada como base para a possibilidade de representar Cristo sem negar a glória de Deus.
Também se fazia referência a exemplos do Antigo Testamento, como:
“Farás dois querubins de ouro” (Êxodo 25:18).
O uso de imagens no tabernáculo era apresentado como evidência de que nem toda representação visual constitui idolatria.
Ao mesmo tempo, textos de advertência permaneciam no pano de fundo:
“Não farás para ti imagem de escultura” (Êxodo 20:4).
A tensão bíblica nunca foi plenamente resolvida, apenas equilibrada por argumentos teológicos.
As decisões do sétimo concílio
O Segundo Concílio de Niceia distingue entre adoração, devida somente a Deus, e veneração, permitida às imagens como forma de honra relativa.
O concílio afirma que as imagens podem ser usadas como meios de instrução e memória da fé, desde que não sejam adoradas como divindades.
Essa distinção buscava proteger o monoteísmo cristão, mas também revela uma tentativa humana de controlar limites que, na prática, se mostrariam difíceis de manter.
Pontos fortes do Concílio de Niceia II
Entre os aspectos positivos, destacam-se:
A tentativa de preservar a encarnação como realidade concreta
O reconhecimento do valor pedagógico da fé
A preocupação em diferenciar Deus de qualquer objeto material
O esforço para manter unidade em meio a fortes divisões
O concílio mostra uma Igreja tentando dialogar com culturas diversas sem negar completamente sua herança bíblica.
Pontos fracos e sinais de afastamento progressivo
Ao mesmo tempo, esse concílio expõe um deslocamento importante. A fé começa a ser cada vez mais mediada por objetos, imagens e práticas visíveis.
Mesmo com distinções teóricas bem definidas, a prática religiosa passa a correr o risco de substituir a confiança direta em Deus por elementos tangíveis. Aquilo que deveria apontar para o invisível começa, pouco a pouco, a ocupar o centro da devoção.
Aqui, de forma sutil, percebe-se mais um passo no caminho que levará ao fortalecimento de uma religiosidade altamente simbólica, ritualizada e institucional, característica do catolicismo medieval.
Não se trata de acusação direta, mas de observação histórica. A Igreja buscava preservar a fé, mas, ao fazê-lo, abriu espaço para práticas que nem sempre conduziam ao coração do Evangelho.
A Igreja diante do risco da mediação excessiva
O sétimo concílio ensina algo fundamental, o ser humano possui uma inclinação constante a transformar meios em fins.
Mesmo com a Bíblia presente
mesmo com boas intenções
mesmo com distinções teológicas cuidadosas
a prática religiosa pode se afastar do espírito do Evangelho, que chama à fé, à confiança e à dependência direta de Deus.
A Escritura insiste que:
“Andamos por fé, e não por vista” (2 Coríntios 5:7).
Esse princípio permanece como critério silencioso diante das decisões conciliares.
Um concílio que fecha um ciclo e abre um alerta
O Segundo Concílio de Niceia encerra o ciclo dos sete concílios ecumênicos clássicos. Ele não redefine a cristologia, mas redefine a forma como a fé será experimentada visualmente e devocionalmente.
Ao mesmo tempo, ele deixa um alerta que atravessa toda a história da Igreja. Sempre que a fé precisa de muitos suportes externos para se sustentar, algo do seu centro corre o risco de ser deslocado.
A história mostra que o afastamento do Evangelho não acontece pela negação explícita da Bíblia, mas pelo acréscimo gradual de mediações que passam a competir com a simplicidade da fé.
Referência externa para validação histórica
Análise histórica do Segundo Concílio de Niceia, seu contexto, decisões e impacto na história do cristianismo, disponível na Enciclopédia Britannica:
https://www.britannica.com/event/Second-Council-of-Nicaea-787
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