O décimo concílio da história, conhecido como o Segundo Concílio de Latrão, ocorreu no ano de 1139 d.C., apenas dezesseis anos após o Concílio de Latrão I. Esse intervalo curto revela algo importante, a Igreja medieval já enfrentava crises constantes não por falta de definições, mas por excesso de poder, corrupção interna e afastamento progressivo das Escrituras.
Neste ponto da história, a fé cristã já estava profundamente envolvida com estruturas políticas, militares e econômicas. Cruzadas continuavam sendo promovidas em nome de Deus, indulgências começavam a se consolidar como prática comum, e a coerção religiosa se tornava cada vez mais aceitável como instrumento de “pureza da fé”.
O Concílio de Latrão II não nasce para aprofundar o Evangelho, mas para tentar conter os efeitos colaterais de um sistema religioso que já havia se distanciado do ensino apostólico.
O contexto que levou ao Concílio de Latrão II
O concílio ocorre após um período de grande instabilidade interna, marcado por cismas, disputas papais, simonia, corrupção clerical e uso explícito da violência religiosa.
A Igreja já se via como autoridade suprema sobre consciências, territórios e governos. O problema agora não era mais perseguição externa, mas degradação interna.
As perguntas que dominavam o cenário não eram espirituais, mas administrativas:
Como conter abusos do próprio clero?
Como preservar autoridade sem perder controle?
Como justificar práticas que contradiziam o Evangelho?
Para os gentios, a fé cristã já não era apresentada como boas-novas, mas como um sistema de obrigações, punições e promessas condicionadas.
As bases bíblicas evocadas no concílio
Mesmo em um ambiente profundamente institucionalizado, a Escritura continuava sendo usada como fundamento retórico.
Um dos textos frequentemente citados foi:
“Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mateus 6:24).
Esse versículo era usado para condenar a simonia e a corrupção, ainda que a própria estrutura eclesiástica estivesse profundamente ligada ao poder econômico.
Outro texto recorrente foi:
“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10).
Essas palavras eram aplicadas a abusos individuais, mas raramente ao sistema que os produzia.
Também aparecia:
“Quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos” (Marcos 9:35).
Um texto claro, que confronta diretamente a lógica hierárquica que dominava a Igreja medieval.
Em contraste, textos igualmente claros permaneciam ignorados na prática:
“De graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10:8).
“Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
A Bíblia continuava aberta, mas seletivamente aplicada.
As principais decisões do Concílio de Latrão II
O concílio declara inválidas ordenações feitas por meios considerados ilegítimos, condena práticas de simonia, tenta impor disciplina moral ao clero e reafirma a autoridade central da Igreja.
Essas decisões mostram uma tentativa real de correção. No entanto, elas atuam apenas nos sintomas, não na raiz do problema.
O sistema que permitia indulgências, justificava guerras santas e usava coerção religiosa permanece intacto.
Pontos fortes do Concílio de Latrão II
Entre os aspectos positivos, podem ser destacados:
A tentativa de combater corrupção interna
O reconhecimento de abusos clericais
O esforço por alguma reforma moral
A preservação formal da Escritura como referência
Esses pontos indicam que havia consciência de que algo estava errado.
Pontos fracos e o aprofundamento do desvio
Ao mesmo tempo, o concílio deixa claro que a Igreja já havia cruzado um limite.
As práticas contrárias às Escrituras continuavam:
Cruzadas seguiam sendo tratadas como atos espirituais meritórios
Indulgências se fortaleciam como mecanismo de controle e arrecadação
A Inquisição começava a se estruturar como instrumento legítimo
A fé era imposta pelo medo, não anunciada pela graça
Nada disso encontra base no ensino de Cristo ou dos apóstolos.
Jesus chama à conversão, não à violência.
Oferece perdão, não o comercializa.
Convence pela verdade, não pela força.
Aqui, o afastamento já não é apenas teológico, mas ético e espiritual.
A Igreja diante do espelho das Escrituras
O Segundo Concílio de Latrão mostra uma Igreja que ainda cita a Bíblia, mas já não se deixa corrigir por ela.
Mesmo com textos claros
mesmo com advertências apostólicas
mesmo com o Evangelho preservado
o ser humano continua inclinando a fé para o poder.
A advertência bíblica permanece válida:
“Examinai se o que vos anunciam procede de Deus” (1 João 4:1).
“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Essas palavras agora confrontam não hereges externos, mas a própria instituição.
Um concílio que tenta corrigir sem abandonar o erro
O Concílio de Latrão II revela o paradoxo da Igreja medieval. Ela reconhece excessos, mas não abandona as estruturas que os produzem. Corrige comportamentos, mas preserva o sistema.
O afastamento do Evangelho já não ocorre por ignorância, mas por escolha. A Igreja passa a confiar mais em decretos, punições e hierarquias do que na suficiência da Palavra de Deus.
Este concílio mostra que, quando a fé se transforma em instrumento de poder, mesmo boas intenções produzem resultados contrários ao Evangelho.
Referência externa para validação histórica
Análise histórica do Segundo Concílio de Latrão, seu contexto, decisões e impacto na Igreja medieval, disponível no Wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Segundo_Conc%C3%ADlio_de_Latr%C3%A3o
Esclarecimentos históricos necessários para compreender o desvio progressivo da fé
Para que a leitura deste concílio seja honesta, histórica e intelectualmente responsável, é necessário explicar com mais clareza três práticas que já estavam presentes, em expansão ou em consolidação no período do Concílio de Latrão II, indulgências, inquisição e cruzadas. Esses elementos não são periféricos, eles moldam profundamente a forma como a fé cristã passou a ser vivida e imposta.
Esses esclarecimentos não anulam o texto anterior, apenas iluminam aquilo que já estava implícito.
O que eram as indulgências
As indulgências surgem a partir da ideia de que, mesmo após o perdão dos pecados, ainda restaria uma punição temporal a ser paga pelo fiel. A Igreja passa então a se apresentar como mediadora desse “alívio”, concedendo redução ou cancelamento dessas penas mediante determinadas condições.
Inicialmente, essas condições envolviam penitências, peregrinações ou atos considerados piedosos. Com o tempo, especialmente no período medieval, as indulgências passam a ser associadas a contribuições financeiras, apoio a campanhas religiosas ou participação em guerras consideradas santas.
Na prática, o perdão deixa de ser anunciado como fruto exclusivo da graça de Deus e passa a ser administrado institucionalmente.
Isso entra em choque direto com o ensino bíblico:
“Sendo justificados gratuitamente, por sua graça” (Romanos 3:24).
“O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17).
A indulgência transforma o perdão em mecanismo controlado pela instituição, deslocando o centro da fé da confiança em Cristo para a dependência de um sistema religioso.
O que era a Inquisição
A Inquisição nasce como um tribunal religioso com o objetivo declarado de preservar a pureza da fé. Seu papel era identificar, julgar e punir aqueles considerados hereges, ou seja, pessoas que discordavam de ensinamentos oficiais da Igreja.
Com o tempo, esse sistema passa a utilizar métodos de coerção, interrogatórios forçados, prisões e, em muitos casos, tortura e execução. A conversão deixa de ser fruto de convencimento pela verdade e passa a ser imposta pelo medo.
A Escritura, porém, apresenta outro caminho:
“O servo do Senhor não deve contender, mas ser manso para com todos” (2 Timóteo 2:24).
“A fé vem pelo ouvir” (Romanos 10:17).
A Inquisição representa um ponto em que a Igreja já não confia na força da verdade do Evangelho, mas na força da autoridade humana.
O que eram as Cruzadas
As Cruzadas foram expedições militares organizadas sob o discurso de defesa da fé cristã e recuperação de territórios considerados sagrados. Guerrear, matar e conquistar passam a ser apresentados como atos espiritualmente meritórios.
Participar de uma cruzada podia resultar em indulgências, perdão de pecados e reconhecimento religioso. A violência passa a ser sacralizada.
Isso contradiz frontalmente o ensino de Jesus:
“Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
“Amai os vossos inimigos” (Mateus 5:44).
“Todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mateus 26:52).
As cruzadas revelam uma fé que já não distingue claramente o Reino de Deus dos reinos humanos.
O impacto dessas práticas na fé cristã
Quando indulgências, inquisição e cruzadas passam a coexistir com a linguagem cristã, ocorre uma mudança profunda na experiência da fé.
O perdão deixa de ser recebido e passa a ser negociado.
A verdade deixa de ser anunciada e passa a ser imposta.
A missão deixa de ser espiritual e passa a ser militar.
Para os gentios, o cristianismo já não aparece como boa-nova, mas como sistema de controle religioso, social e político.
A Bíblia continua sendo citada, mas agora fragmentada, instrumentalizada e subordinada a interesses institucionais.
O padrão que se consolida a partir do Concílio de Latrão II
Essas práticas não surgem isoladamente. Elas fazem parte de um mesmo padrão, uma Igreja que, mesmo com as Escrituras preservadas, passa a confiar mais em seus próprios mecanismos do que na suficiência do Evangelho.
O Concílio de Latrão II tenta corrigir excessos morais, mas não questiona essas estruturas profundamente antibíblicas. Ao não enfrentá-las, acaba por legitimá-las indiretamente.
A advertência bíblica permanece como um contraste silencioso:
“Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (Zacarias 4:6).
Esse texto resume aquilo que a Igreja medieval gradualmente deixou de praticar.
Um acréscimo que esclarece, não reescreve
Essas explicações não alteram o diagnóstico já apresentado. Elas apenas deixam mais claro que o afastamento da fé bíblica não aconteceu por abandono explícito da Escritura, mas por sua substituição prática por sistemas humanos.
O Concílio de Latrão II representa um momento em que a Igreja ainda fala a linguagem da Bíblia, mas já vive segundo outra lógica.
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