O décimo quinto concílio da história, conhecido como o Concílio de Vienne, ocorreu entre os anos de 1311 e 1312 d.C., na cidade francesa de Vienne. Este concílio não representa mais um desvio em construção, mas a exposição aberta de uma Igreja espiritualmente corrompida, tentando administrar as consequências de décadas de abusos cometidos em nome de Deus.
Aqui, o cristianismo institucional já não vive tensão entre Evangelho e poder, o poder venceu. O Evangelho permanece apenas como linguagem legitimadora de decisões políticas, econômicas e militares.
O Concílio de Vienne não busca arrependimento, busca controle de danos.
O contexto histórico do Concílio de Vienne
O início do século XIV é marcado por um cenário de colapso moral e espiritual.
As Cruzadas estão desacreditadas, mas ainda defendidas teologicamente.
A Inquisição atua com brutalidade contra pobres, dissidentes e grupos marginalizados.
As indulgências se expandem como sistema financeiro-religioso.
A Igreja acumula riquezas enquanto o povo enfrenta fome, miséria e medo espiritual.
Além disso, emerge um escândalo impossível de ocultar, a corrupção da Ordem dos Templários, anteriormente exaltados como guerreiros santos. O concílio é convocado não para julgar a violência religiosa, mas para reorganizar o poder e preservar a imagem da Igreja.
A pergunta central já não é espiritual, é política: como manter autoridade sem perder legitimidade?
As questões centrais discutidas no Concílio de Vienne
Entre os principais temas do concílio estão:
A dissolução da Ordem dos Templários
A reafirmação da Inquisição
A continuação do sistema de indulgências
O planejamento indireto de novas campanhas militares
Nada disso nasce da pregação de Cristo. São respostas institucionais a crises criadas pela própria instituição.
A Igreja passa a agir como tribunal supremo da história, não como corpo de Cristo.
As bases bíblicas evocadas no concílio
Mesmo neste estágio avançado de distanciamento, a Bíblia continua sendo usada, agora quase exclusivamente como instrumento de legitimação.
Para justificar autoridade disciplinar absoluta, recorre-se a:
“Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu” (Mateus 18:18).
Esse texto, originalmente aplicado à restauração comunitária, passa a justificar condenações políticas e religiosas.
Outro texto citado é:
“Quem vos ouve, a mim me ouve” (Lucas 10:16).
Aqui, a missão apostólica é completamente confundida com submissão à hierarquia institucional.
Também aparece:
“Obedecei aos vossos guias” (Hebreus 13:17).
Sem qualquer referência à prestação de contas desses líderes à Palavra de Deus.
Em contraste, textos centrais do Evangelho continuam ignorados:
“Meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
“Bem-aventurados os pobres” (Lucas 6:20).
“De graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10:8).
Esses textos desmontariam toda a lógica do concílio.
A dissolução dos Templários e a hipocrisia institucional
Um dos episódios mais reveladores do Concílio de Vienne é a dissolução da Ordem dos Templários. Após décadas incentivando guerras, saque e violência sob o selo religioso, a Igreja decide eliminar a ordem quando ela se torna politicamente inconveniente.
Não há confissão institucional de culpa.
Não há arrependimento pelas cruzadas promovidas.
Não há revisão da teologia da guerra santa.
A instituição que criou o problema elimina seus próprios instrumentos para preservar poder.
A Escritura adverte:
“O que o homem semear, isso também ceifará” (Gálatas 6:7).
Aqui, a colheita chega, mas a Igreja se recusa a reconhecer sua responsabilidade.
Inquisição, indulgências e terror espiritual
O Concílio de Vienne reafirma a legitimidade da Inquisição. A tortura, o medo e a morte seguem sendo tratados como instrumentos aceitáveis de zelo espiritual.
As indulgências continuam a operar como moeda religiosa. O perdão de Deus é apresentado como algo administrado pela instituição, frequentemente associado a dinheiro, submissão ou apoio militar.
Isso contradiz frontalmente o Evangelho:
“Sendo justificados gratuitamente, por sua graça” (Romanos 3:24).
“O amor não faz mal ao próximo” (Romanos 13:10).
“A fé vem pelo ouvir” (Romanos 10:17).
Aqui, a fé vem pelo medo.
Os abusos contra os pobres e indefesos
Nenhum grupo sofre tanto quanto os pobres.
Sem acesso às Escrituras
sem defesa jurídica
acusados de heresia por discordar
explorados financeiramente por indulgências
o povo vive uma religião de terror.
Enquanto isso, bispos, cardeais e papas vivem cercados de luxo, influência política e privilégios.
A Escritura denuncia:
“Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas” (Jeremias 23:1).
“Eles devoram as casas das viúvas” (Mateus 23:14).
Esses textos descrevem com precisão o cenário do concílio.
Pontos fortes do Concílio de Vienne
Mesmo em meio à falência espiritual, é possível apontar:
Capacidade administrativa
Controle institucional eficiente
Resposta rápida a crises políticas
Mas tudo isso serve à autopreservação, não ao Evangelho.
Pontos fracos e a ruptura irreversível
Os pontos fracos são devastadores:
Uso sistemático da violência religiosa
Comercialização da fé
Supressão da autoridade das Escrituras
Exploração dos pobres
Ausência total de arrependimento institucional
Aqui, a Igreja já não erra por ignorância. Ela escolhe permanecer distante do Evangelho.
A Igreja diante do juízo da própria história
O Concílio de Vienne expõe uma verdade incômoda, a Igreja medieval já não é reformável por dentro. Ela não ouve mais a Escritura, apenas a cita.
A advertência de Jesus ecoa com força:
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).
“Todo reino dividido contra si mesmo não subsistirá” (Mateus 12:25).
Essas palavras anunciam não restauração imediata, mas colapso futuro.
Um concílio que sela o esgotamento espiritual
O décimo quinto concílio da história não marca restauração, marca esgotamento. A fé cristã institucional já não vive do Evangelho, vive do poder.
O nome de Cristo permanece nos decretos.
A cruz permanece nos estandartes.
A Bíblia permanece nos altares.
Mas o coração da fé já não está ali.
O afastamento das Escrituras não acontece por rejeição aberta, mas por substituição sistemática da graça por controle, do Evangelho por império.
Referência externa para validação histórica
Análise histórica do Concílio de Vienne, seu contexto, decisões e impacto na dissolução dos Templários e na consolidação da Igreja medieval tardia, disponível na Enciclopédia Britannica:
https://www.britannica.com/event/Council-of-Vienne
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