O décimo sétimo concílio da história, iniciado em Basileia em 1431 e posteriormente transferido para Ferrara e depois Florença, marca um momento decisivo de tensão interna na Igreja. Aqui, já não estamos diante apenas de desvios sutis ou símbolos deslocados. Estamos diante de uma Igreja fraturada, tentando preservar autoridade enquanto a pressão por retorno às Escrituras cresce de forma irreversível.
Este concílio não nasce para restaurar o Evangelho, mas para resolver crises de poder. Ainda assim, ele acaba expondo com clareza o esgotamento de um modelo e preparando, mesmo sem querer, o terreno para aquilo que viria poucas décadas depois.
O contexto histórico, uma Igreja em crise profunda
Após o Concílio de Constança, que silenciou vozes fiéis às Escrituras e executou homens como Hus e Jerônimo de Praga, a Igreja não encontra paz. Pelo contrário, ela entra em um período de instabilidade estrutural.
Há conflitos entre concílios e papado.
Há disputas políticas entre reinos cristãos.
Há crise financeira causada por guerras, indulgências e manutenção do clero.
Há um povo cada vez mais distante da Bíblia e cada vez mais dependente da instituição.
O Concílio de Basileia surge, inicialmente, com uma proposta aparentemente correta, afirmar que o concílio teria autoridade superior ao papa. Isso revela algo importante, a própria Igreja reconhece que o poder concentrado produziu abusos.
Mas reconhecer o problema não significa corrigi-lo biblicamente.
De Basileia a Florença, quando o concílio se fragmenta
O concílio começa em Basileia, mas rapidamente entra em conflito com o papado. Parte dos líderes insiste em manter o concílio ali, defendendo uma Igreja mais colegiada. Outra parte segue o papa, transferindo o concílio primeiro para Ferrara e depois para Florença.
Essa divisão não é teológica no sentido bíblico. Ela é política e institucional.
A pergunta não é “o que dizem as Escrituras?”, mas “quem tem autoridade para decidir?”.
Enquanto isso, o Evangelho segue ausente do centro.
As pautas discutidas, unidade institucional acima da verdade
Entre os principais temas do concílio estão:
Tentativa de reunificação com a Igreja Oriental
Reorganização do poder papal e conciliar
Continuidade do sistema sacramental
Manutenção das indulgências
Financiamento de guerras e da máquina eclesiástica
A reunificação com o Oriente, assim como em Lyon II, acontece sem arrependimento e sem retorno comum às Escrituras. Exige-se submissão institucional, não concordância bíblica.
A unidade buscada é administrativa, não espiritual.
A Escritura afirma:
“Procurai a paz com todos” (Hebreus 12:14).
Mas também afirma:
“A tua palavra é a verdade” (João 17:17).
Sem verdade, não há unidade real.
A Bíblia continua presente, mas não governa
Neste concílio, a Bíblia ainda é citada, mas não como autoridade final. Textos são usados para sustentar decisões já tomadas.
A Igreja continua afirmando obediência:
“Obedecei aos vossos guias” (Hebreus 13:17).
Mas ignora textos igualmente claros:
“Importa obedecer a Deus antes que aos homens” (Atos 5:29).
“O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17).
Esses textos já circulavam, já eram conhecidos, mas permaneciam subordinados à tradição e ao poder.
O impacto sobre os gentios e o povo simples
Para o povo comum, especialmente os gentios recém-integrados culturalmente à cristandade europeia, o cristianismo já não se apresenta como boa notícia.
A salvação é mediada pela Igreja.
A graça é condicionada a sacramentos.
O perdão é associado a indulgências.
A obediência à instituição é tratada como obediência a Deus.
A Escritura, porém, é clara:
“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Romanos 3:28).
“Pela graça sois salvos, mediante a fé” (Efésios 2:8).
Essas verdades já estavam ali, mas eram mantidas fora do alcance do povo.
Abusos consolidados, não corrigidos
Neste período, cruzadas, Inquisição e indulgências não são questionadas de forma estrutural. Elas são mantidas como instrumentos legítimos.
A Inquisição continua perseguindo dissidentes.
As indulgências continuam explorando os pobres.
A violência religiosa continua sendo espiritualizada.
A Igreja não nega o Evangelho em palavras, mas o contradiz em prática.
A Escritura adverte:
“Ai dos que chamam ao mal bem” (Isaías 5:20).
“Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens” (Mateus 23:4).
Essas palavras descrevem com precisão este período.
Pontos fortes do concílio
É possível reconhecer alguns aspectos positivos:
Reconhecimento de que o poder absoluto gera abusos
Tentativa de limitar excessos papais
Consciência de crise institucional
Mas nenhum desses pontos se traduz em retorno real às Escrituras.
Pontos fracos, o afastamento definitivo do Evangelho
Os pontos fracos são profundos:
Autoridade bíblica continua subordinada à tradição
A fé permanece institucionalizada
O povo segue sem acesso pleno à Escritura
A salvação continua mediada pela Igreja
Os pobres seguem sendo explorados
Aqui, a distância entre Evangelho e instituição se torna estrutural.
Preparando o terreno para a Reforma
É neste contexto que surgem, com mais força, os chamados pais da Reforma. Não como rebeldes, mas como homens profundamente preocupados com a fidelidade bíblica.
A Bíblia começa a circular mais amplamente.
A imprensa se aproxima.
A educação se expande.
O contraste entre Escritura e prática eclesiástica se torna impossível de ignorar.
O que aconteceu com Wycliffe, Hus e Jerônimo não foi esquecido. Pelo contrário, tornou-se semente.
A Igreja tentou calar vozes. Mas a Palavra já estava viva.
“Seca-se a erva, cai a flor, mas a palavra do nosso Deus permanece eternamente” (Isaías 40:8).
O método que será confrontado adiante
Este concílio deixa claro o método que será atacado pela Reforma:
Substituir Escritura por tradição
Substituir fé por obediência institucional
Substituir graça por mérito
Substituir Cristo por mediações
É contra isso que, em breve, Martinho Lutero se levantará. Não com armas, mas com Bíblia aberta.
A salvação dos gentios nunca foi pela lei, nem por submissão à Igreja, mas pela fé.
“Sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 2:16).
Essa verdade estava lá desde o início. Agora, ela está prestes a romper as estruturas.
Um concílio que revela o fim de uma era
O Concílio de Basileia–Ferrara–Florença não restaura o Evangelho. Ele revela que a Igreja institucional já não consegue mais fazê-lo de dentro.
O sistema tenta se ajustar.
Mas a Escritura exige reforma.
E quando a Palavra volta ao centro, nada permanece igual.
Referência externa para validação histórica
Documentação histórica sobre o Concílio de Basileia–Ferrara–Florença (1431–1449), seu contexto, conflitos internos e impacto na história da Igreja, disponível em fonte acadêmica e enciclopédica:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_de_Basileia-Ferrara-Floren%C3%A7a
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