Vivemos um tempo em que a identidade deixou de ser um ponto de partida para se tornar um cárcere. Rótulos políticos, ideológicos e culturais passaram a definir antecipadamente o que alguém pode pensar, dizer, apoiar ou rejeitar. Não se discute mais ideias, defende-se pertencimento. Não se busca verdade, protege-se o próprio grupo. Quanto mais rígida a identidade, menor a liberdade interior do indivíduo.
A polarização política não aprisiona apenas o debate público, ela captura a consciência. Quando uma ideologia passa a determinar o que devo pensar, como devo reagir e quais conclusões devo aceitar, a autonomia já foi perdida. O indivíduo deixa de decidir e passa a repetir. Discordar vira traição, pensar vira ameaça. A liberdade se dissolve silenciosamente.
Nesse ambiente, a pessoa deixa de ser vista como sujeito e passa a ser tratada como rótulo. Antes mesmo de falar, já foi classificada. Se pertence a um campo ideológico, tudo o que diz é automaticamente filtrado, rejeitado ou aplaudido, não pelo conteúdo, mas pela origem. O pensamento deixa de ser avaliado pela coerência e passa a ser julgado pela identidade. Isso é o colapso da autonomia intelectual.
Esse fenômeno não é apenas percepção pessoal. Pesquisas em psicologia social e ciência política mostram que, em contextos de alta polarização, as pessoas tendem a rejeitar fatos e evidências que entram em conflito com sua identidade de grupo. Estudos indicam que a identidade política frequentemente pesa mais do que a razão na formação de crenças, levando indivíduos a defender posições não porque são verdadeiras, mas porque protegem o pertencimento ao grupo. Esse mecanismo é analisado em trabalhos acadêmicos que mostram como crenças políticas moldam a aceitação ou rejeição de evidências científicas e sociais: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0176268024000806
O dado é revelador porque mostra que o problema não é falta de informação, mas excesso de identidade. Quando a identidade se torna absoluta, o pensamento se torna opcional. A ideologia deixa de ser uma lente para compreender o mundo e passa a ser uma jaula que define o que pode ou não ser pensado.
Muito antes das redes sociais e da polarização digital, filósofos já alertavam para esse risco. Hannah Arendt observou que sistemas ideológicos tendem a substituir o pensamento pela repetição automática, afirmando que a ideologia transforma uma ideia em explicação total da realidade, e quem a aceita deixa de pensar. Quando tudo já está explicado, não há espaço para consciência, dúvida ou responsabilidade individual.
George Orwell tocou no mesmo ponto ao afirmar que o verdadeiro inimigo da liberdade é a incapacidade de pensar por si mesmo. A perda da liberdade não começa com censura externa, ela começa quando o indivíduo entrega voluntariamente seu julgamento a uma narrativa coletiva. A prisão mais eficaz é aquela que não parece prisão.
O problema não é ter posição política, convicção moral ou visão de mundo. O problema é quando essas posições passam a funcionar como grades invisíveis. Quando alguém já sabe o que vai pensar antes mesmo de ouvir. Quando a decisão já está tomada antes da pergunta. Quando o medo de ser excluído pesa mais do que o compromisso com a verdade.
A polarização cria um ambiente em que ninguém escuta, todos reagem. Reagir dá sensação de pertencimento, mas não produz compreensão. O indivíduo se torna previsível, emocionalmente dependente do grupo e facilmente manipulável. Isso não é engajamento consciente, é condicionamento social.
Ser livre exige um preço alto. Exige pensar sozinho, suportar a tensão de não caber perfeitamente em nenhum rótulo, aceitar a complexidade da realidade. Exige coragem para discordar do próprio lado quando necessário. Exige maturidade para rever convicções sem trocar de identidade como quem troca de camisa.
Quando a identidade vira prisão, a sociedade pode até parecer barulhenta e engajada, mas está intelectualmente empobrecida. A verdadeira liberdade não está em repetir o discurso do grupo certo, está em manter a consciência desperta mesmo quando isso custa aplausos, pertencimento e conforto. Onde não há liberdade para pensar, nenhuma outra liberdade se sustenta.
É por isso que tratar episódios como Auschwitz apenas como passado distante é um erro perigoso. Auschwitz não é apenas sobre o que aconteceu, é sobre como aconteceu. Nada ali foi improvisado. Houve leis, houve discursos, houve intelectuais justificando, artistas aplaudindo, jornalistas normalizando. Pessoas comuns passaram a acreditar que eliminar o outro era um bem maior. Não porque eram monstros, mas porque pararam de questionar.
Auschwitz revela o destino final de sociedades que transformam ideologia em verdade absoluta e pensamento em traição. Ideologias não começam ordenando a morte, começam ensinando quem não merece ser ouvido, quem deve ser silenciado, quem pode ser desumanizado. Quando opiniões viram rótulos, quando discordar vira crime moral, quando slogans substituem reflexão e emoção vale mais que fato, o caminho já está sendo pavimentado.
A pergunta, portanto, não é histórica, é urgente. O que estamos aceitando hoje como normal no Brasil e no mundo em nome de causas, lados e narrativas? Quem estamos desumanizando sem perceber? Até onde estamos dispostos a ir para proteger uma identidade coletiva, mesmo que isso custe a consciência individual?
A história não absolve quem terceiriza o próprio julgamento. Pensar tem custo. Questionar gera desconforto. Mas viver sem consciência custa muito mais. A liberdade começa quando alguém se recusa a entregar sua humanidade em troca de pertencimento. E nenhuma causa, por mais sedutora que pareça, justifica o abandono da consciência.
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