Durante anos de caminhada pastoral, ouvi uma frase se repetir com impressionante frequência, criei meus filhos com a mesma educação, mas eles se tornaram completamente diferentes. No início, muitos pais diziam isso com espanto, depois com frustração, às vezes até com culpa. Com o tempo, eu percebi que o problema não estava na constatação, mas na expectativa errada que vinha antes dela.
Existe uma confusão profunda entre valores e método. Valores podem e devem ser os mesmos, honestidade, responsabilidade, empatia, respeito, compromisso. Mas método, forma, ritmo, abordagem e estímulo não podem ser padronizados como se todos fossem feitos do mesmo molde. Pessoas não são iguais, nunca foram, e qualquer sistema educativo que ignora isso inevitavelmente produz frustração, desperdício de potencial e, em muitos casos, sofrimento silencioso.
No acompanhamento de famílias, vi filhos completamente diferentes dentro da mesma casa. Um mais introspectivo, outro expansivo. Um mais analítico, outro mais intuitivo. Um aprende observando, outro precisa experimentar. Um floresce com desafio, outro trava sob pressão. Quando se tenta educar todos da mesma maneira, o que acontece não é igualdade, é injustiça disfarçada de neutralidade.
Lembro-me de uma entrevista do Romário, ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol, em que ele dizia algo que muitos interpretaram como preguiça, mas que na verdade era lucidez. Ele explicava que treinava de forma diferente dos outros jogadores. Enquanto havia atletas altos, fortes e velocistas, ele era baixo, explosivo e extremamente preciso. Não fazia sentido treinar como quem tinha um corpo completamente diferente do dele. Então ele treinava aquilo que fazia sentido para suas funções, posicionamento, finalização, leitura de jogo. Ele não corria sem propósito. Ele se especializou no que fazia melhor. O resultado todos conhecem.
Esse raciocínio simples revela uma verdade ignorada em muitos ambientes, não se desenvolve pessoas tratando-as como se fossem iguais, desenvolve-se pessoas reconhecendo suas diferenças. O esporte entendeu isso há muito tempo. A educação formal e religiosa, em grande parte, ainda resiste.
Na escola, o cenário é quase cruel. Salas cheias de alunos radicalmente diferentes entre si, submetidos ao mesmo modelo de ensino, à mesma forma de avaliação, ao mesmo ritmo, às mesmas cobranças. Espera-se que todos aprendam da mesma forma, no mesmo tempo, com os mesmos estímulos. Quando alguém não acompanha, o problema quase sempre é colocado no aluno, e raramente no método.
Há estudos sólidos na área da psicologia educacional que confirmam isso. Pesquisas sobre estilos de aprendizagem e inteligências múltiplas mostram que pessoas processam informação de maneiras diferentes, algumas com maior facilidade verbal, outras visual, outras cinestésica, outras lógica. Ignorar isso não cria igualdade, cria exclusão silenciosa. Um exemplo amplamente discutido é o trabalho de Howard Gardner sobre inteligências múltiplas, que questiona diretamente a ideia de uma inteligência única e mensurável da mesma forma para todos.https://pt.wikipedia.org/wiki/Howard_Gardner
No ambiente religioso, o erro se repete com outra roupagem. Usa-se o mesmo discurso, o mesmo método de formação, o mesmo tipo de cobrança espiritual para pessoas completamente diferentes. Alguns respondem bem a estruturas rígidas, outros adoecem nelas. Alguns crescem com desafios diretos, outros precisam de processos mais cuidadosos. Quando isso não é respeitado, surgem culpas desnecessárias, crises de identidade e afastamento silencioso.
Ao longo do tempo, fui entendendo que educar não é padronizar, é discernir. Não é impor um molde, é lapidar uma singularidade. Educar é perceber o outro, não apenas corrigir comportamentos. É perguntar mais antes de afirmar. É observar mais antes de exigir.
Do ponto de vista sociológico, essa padronização excessiva atende mais à lógica do controle do que ao desenvolvimento humano. Sistemas gostam de previsibilidade. Pessoas reais são imprevisíveis. Quando se força previsibilidade sobre indivíduos complexos, o preço é alto, apatia, rebeldia, frustração ou mediocridade conformada.
Alguém precisa dizer isso com clareza, respeitar diferenças não é relativizar valores, é aplicar valores com sabedoria. Justiça não é tratar todos iguais, é tratar cada um de acordo com sua realidade, potencial e limite. Ignorar isso não forma pessoas maduras, forma sobreviventes emocionais tentando se encaixar onde nunca couberam.
A educação, seja familiar, escolar ou espiritual, precisa acordar para essa verdade. Enquanto insistirmos em métodos únicos para pessoas plurais, continuaremos perdendo talentos, ferindo consciências e chamando isso de normalidade. Eu aprendi isso observando gente real, famílias reais, histórias reais. E quanto mais observo, mais convicto fico, ninguém floresce quando é educado como cópia. Pessoas florescem quando são vistas.
Há um exemplo que sempre me vem à mente quando penso nisso, e ele diz muito sobre o poder de reconhecer a singularidade de alguém. Em um vídeo do Clóvis de Barros Filho, ele conta de forma bem-humorada como o próprio pai, durante muito tempo, acreditou que ele não daria em nada dentro dos padrões tradicionais da época. Não era o aluno exemplar esperado, não se encaixava no molde previsível de sucesso. Mas houve um momento decisivo, o dia em que o pai percebeu algo essencial, Clóvis era um comunicador nato. Esse relato pode ser visto neste vídeo:
A partir dessa percepção, tudo mudou. Em vez de forçá-lo a caber em uma forma que não era a dele, o pai fez algo raro e sábio, disse para que ele se apegasse a isso com tudo o que tinha. Comunicação, pensamento, palavra, era ali que estava sua força. Imagine se, naquele momento, o pai tivesse insistido em enquadrá-lo no padrão comum, no modelo aceitável da época. Muito provavelmente, teríamos perdido um dos maiores comunicadores e pensadores públicos do nosso tempo.
Esse exemplo revela algo fundamental, grandes trajetórias não nascem da padronização, mas do reconhecimento. Quando alguém é visto em sua singularidade e incentivado a desenvolver aquilo que realmente é, o resultado ultrapassa expectativas. Esse vídeo traduz de forma simples e poderosa tudo o que venho dizendo, educar não é moldar cópias, é ajudar pessoas a se tornarem plenamente quem são.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
