Ao longo da minha vida, algo foi ficando cada vez mais evidente para mim, as pessoas costumam ter o rosto do líder que seguem. Não apenas no discurso, mas na forma de pensar, nos limites que aceitam, nas perguntas que não fazem e até nos medos que carregam. Cada tribo religiosa constrói um tipo específico de pessoa, quase sempre moldada mais pela liderança do que pelas Escrituras.
Quando criança, frequentei a Assembleia de Deus. Era o universo que eu conhecia. Dentro daquela cultura, convivia com pessoas sinceras, dedicadas e cheias de boa intenção. Mas havia um limite muito claro, tudo o que fugia do que o líder ensinava ou do que a doutrina local determinava era automaticamente considerado pecado. Não porque a Bíblia dissesse explicitamente, mas porque “aqui é assim”. Essa frase me marcou profundamente.
Mesmo ainda jovem, eu me incomodava com isso. Muitas vezes eu questionava, mas espera, onde exatamente a Bíblia proíbe isso? A resposta quase nunca vinha das Escrituras, vinha da tradição, da cultura interna, do medo de ultrapassar fronteiras invisíveis. Cresci, me tornei adolescente, depois jovem, e continuei sendo alguém sonhador, inquieto, não porque quisesse romper com a fé, mas porque percebia que o mundo era muito maior do que aquela mentalidade fechada. E mais, eu via nas próprias Escrituras que muitos daqueles limites não vinham de Deus, vinham de homens.
Esse incômodo me levou ao estudo. Quanto mais eu estudava, mais tentava organizar meus argumentos. Aos 23 anos, já casado, iniciei um grupo de jovens que começou com cerca de quinze pessoas. Em pouco tempo, esse grupo cresceu para setenta adolescentes. Ali eu ensinava a Bíblia de forma aberta, responsável e livre, incentivando perguntas, leitura do texto, reflexão e consciência. O crescimento foi rápido, mas o problema também. Não demorou para eu perceber que aquele tipo de ensino não cabia mais naquele ambiente. Foi quando entendi que minha permanência na Assembleia de Deus havia chegado ao fim.
A partir dali, comecei uma peregrinação comum a muitos que pensam, passei um tempo na Igreja Peniel, em Belo Horizonte, depois na Lagoinha, até chegar a uma igreja batista menor de bairro, a Igreja Batista da Restauração. Ali, após concluir meu curso teológico, fui consagrado ao ministério pastoral no dia 19 de outubro de 2014. Por um período, experimentei uma sensação maior de liberdade. Convivendo com pessoas um pouco mais abertas e com uma base teológica mais sólida, parecia que finalmente havia espaço para respirar.
Mas, com o tempo, algo se repetiu. Apesar do novo ambiente, percebi que aquela tribo também tinha seus próprios limites bem definidos. Limites que, mais uma vez, não estavam claramente nas Escrituras, mas eram sustentados pela tradição, pela convenção e pela leitura oficial da liderança. Ultrapassar esses limites era, novamente, rotulado como pecado. A diferença é que agora os conflitos já não eram internos ou emocionais, eu já tinha formação teológica, experiência pastoral e argumentos. Mesmo assim, os embates eram os mesmos, discussões desnecessárias sobre questões que a Bíblia não condena, mas que a liderança batista e a Convenção Batista determinavam como erradas.
Foi nesse ponto que algo se aprofundou ainda mais em mim. Passei a estudar de forma independente outras áreas do conhecimento, filosofia, sociologia, psicologia, comportamento humano. Comecei a entender melhor como o ser humano constrói suas ideias sobre Deus, moral, ética, amor, perdão, ódio, céu e inferno. Ao mesmo tempo, minha leitura bíblica amadureceu. Percebi que o arminianismo já não respondia às questões que eu via no texto bíblico e na realidade humana. Passei então a estudar mais profundamente a teologia reformada e me tornei calvinista, não por tradição, mas por convicção construída ao longo do tempo.
Ao olhar para trás, algo se tornou cristalino. As pessoas, em grande parte, não vivem aquilo que creem por convicção bíblica profunda, mas por medo. Medo de desagradar o líder. Medo de ser visto como rebelde. Medo de ser excluído da tribo. Assim, cada comunidade acaba vivendo dentro dos limites que o líder estabelece, e isso, por mais religioso que pareça, muitas vezes não tem nada de Deus.
Essa dinâmica não é nova. Martinho Lutero viveu exatamente isso ao confrontar a autoridade religiosa de sua época. Ao questionar práticas que não encontravam fundamento nas Escrituras, ele foi tratado como herege, não porque estivesse errado biblicamente, mas porque ousou ultrapassar os limites da tribo dominante. O mesmo aconteceu com outros reformadores. A Reforma não nasceu apenas de divergências teológicas, nasceu de um conflito humano e sociológico, a tensão entre consciência e controle, entre Escritura e poder institucional.
Girolamo Savonarola é um exemplo claro de como a liderança religiosa, ao se sentir ameaçada, pode reagir com violência institucional. Suas críticas à corrupção moral e espiritual da Igreja de sua época não foram enfrentadas com debate bíblico honesto, mas com repressão, censura e, por fim, execução. Savonarola não foi condenado apenas por suas ideias, mas por desafiar um sistema que não tolerava questionamento interno. Quando a autoridade religiosa se sente exposta, a verdade passa a ser tratada como perigo.
João Calvino, em outro contexto histórico, também enfrentou forte oposição ao estruturar uma teologia sistemática baseada em sua leitura das Escrituras. Suas ideias foram atacadas, distorcidas e combatidas, não apenas por discordâncias teológicas, mas porque ameaçavam estruturas já consolidadas. Esses embates revelam algo recorrente na história religiosa, o problema nem sempre é doutrinário, muitas vezes é humano, institucional e sociológico. Tribos religiosas tendem a proteger seus limites, suas hierarquias e seu poder com mais força do que protegem a verdade.
Minha caminhada me ensinou algo que a religião institucional raramente ensina, gente é complexa, diversa e não cabe em moldes rígidos. Deus não precisa de líderes controlando consciências pelo medo. A fé verdadeira não se sustenta pela ameaça de exclusão, mas pela convicção madura. Quando líderes se colocam como fronteira entre Deus e as pessoas, algo essencial já foi perdido.
Hoje, olhando para toda essa trajetória, eu consigo ver com clareza. O problema não é denominação, é mentalidade. Não é tradição, é medo. Não é zelo espiritual, é controle. E enquanto pessoas continuarem vivendo mais preocupadas com o que o líder pensa do que com o que a Escritura diz, continuarão presas a limites que Deus nunca impôs.
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