Existe um motivo pelo qual a verdade raramente é popular. Ela desorganiza. Ela desmonta certezas cuidadosamente construídas. Ela exige responsabilidade. A mente humana, em geral, prefere conforto à lucidez. Prefere narrativas simples, identidades prontas e explicações que ofereçam pertencimento imediato, em vez de uma verdade complexa que exige transformação interior, revisão de valores e reposicionamento pessoal.
A verdade não é apenas informativa, ela é incômoda. Quando ela aparece, não apenas revela algo novo, ela expõe o quanto investimos emocionalmente em versões convenientes da realidade. E esse é um ponto sensível. Porque abandonar uma ilusão não significa apenas aceitar novos fatos, significa admitir que escolhas passadas, crenças defendidas e alianças feitas talvez tenham sido sustentadas mais por medo, conveniência ou necessidade de pertencimento do que por coerência real.
Na ficção, o conceito de multiverso costuma ser apresentado como algo fascinante e perturbador ao mesmo tempo. Mundos paralelos revelam versões alternativas da realidade, escolhas diferentes, futuros possíveis. Mas a grande ironia é que não precisamos sair do nosso mundo para viver isso. Basta olhar para dentro. Dentro de cada pessoa existe um universo inteiro, com regras próprias, narrativas internas, memórias selecionadas, medos não resolvidos, crenças herdadas, heróis idealizados e vilões cuidadosamente construídos. Cada consciência habita um mundo. E muitas vezes esse mundo é protegido a qualquer custo.
Platão descreveu isso com precisão no mito da caverna. Pessoas acorrentadas, olhando sombras projetadas na parede, acreditando que aquilo é a realidade. Para elas, as sombras não são uma interpretação, são o próprio mundo. Quando uma delas se levanta, sai da caverna e encontra a luz, não experimenta alívio imediato. Encontra dor, confusão, desorientação. A luz machuca os olhos acostumados à escuridão. E quando retorna para contar o que viu, não é celebrado, é hostilizado. Porque a verdade não ameaça apenas ideias, ameaça identidades inteiras construídas sobre aquelas sombras.https://pt.wikipedia.org/wiki/Alegoria_da_Caverna
Essa metáfora permanece brutalmente atual. Vivemos cercados por sombras modernas, narrativas prontas, discursos simplificados, identidades pré-fabricadas e verdades embaladas para consumo rápido. Questionar esse teatro gera desconforto porque obriga a pessoa a confrontar algo mais profundo do que um argumento errado, obriga a confrontar o investimento emocional feito em uma versão conveniente da realidade. A verdade não apenas revela, ela cobra reposicionamento. E reposicionar-se dói.
É nesse ponto que surge uma das ideias mais perigosas do nosso tempo, a noção de que a realidade pode ser moldada exclusivamente pelo que alguém sente. Se aquilo que eu sinto se torna automaticamente verdade, então qualquer limite desaparece. Um copo de água deixa de ser água e passa a ser o que me convém chamá-lo. Uma regra deixa de existir porque eu não me reconheço nela. Um fato deixa de ser fato porque me incomoda. A realidade deixa de ser algo compartilhado e passa a ser um instrumento ajustável aos interesses pessoais.
Quando isso acontece, não estamos ampliando liberdade, estamos dissolvendo a própria noção de realidade. Se tudo é definido pela experiência subjetiva do momento, então não existe mais referência comum, não existe mais critério externo, não existe mais responsabilidade coletiva. Cada pessoa passa a viver em um universo fechado, onde sentimentos não são pontos de partida para reflexão, mas decretos finais sobre o que é ou não verdadeiro.
Essa mesma lógica aparece de forma simbólica no filme Matrix. A pílula azul representa a escolha de permanecer na ilusão, de continuar vivendo dentro de um sistema que oferece sentido pronto, rotina previsível e ausência de conflito interno. A pílula vermelha, por outro lado, não promete felicidade, não promete pertencimento, não promete conforto. Ela promete lucidez. E lucidez tem custo.
O ponto central de Matrix não é tecnologia, é decisão. A maioria das pessoas não está presa porque é forçada, mas porque prefere. A ilusão é confortável, organizada e emocionalmente segura. A verdade é instável, desconcertante e exige responsabilidade. Assim como na caverna de Platão, sair não é um prêmio, é um choque. E nem todos estão dispostos a lidar com o que vem depois.
Quando sentimentos passam a valer mais do que fatos, a pergunta deixa de ser “o que é verdadeiro?” e passa a ser “o que me convém?”. É aí que a conveniência começa a falar mais alto do que a coerência. Valores se tornam flexíveis demais. Princípios passam a ser negociáveis. Relações são mantidas enquanto confirmam narrativas pessoais e descartadas quando confrontam incoerências. Pessoas são valorizadas enquanto servem e rejeitadas quando deixam de ser úteis.
Essa lógica é silenciosa, mas devastadora. Em nome de uma falsa liberdade, abandona-se profundidade. Em nome do conforto emocional, trai-se a verdade. Em nome da conveniência, sacrificam-se vínculos, responsabilidades e até o amor-próprio. O indivíduo passa a viver defendendo versões de si mesmo que não precisam ser verdadeiras, apenas funcionais.
A história humana é clara nesse ponto. Sempre que alguém tentou moldar a realidade exclusivamente à própria vontade, isso gerou colapso. Não porque a realidade seja cruel, mas porque ela resiste a ser violentada por conveniência. Fatos existem. Limites existem. Consequências existem. Ignorá-los não os elimina, apenas adia o impacto.
O Multiverso Infinitoo não romantiza esse processo. Ele parte do princípio de que despertar não é ascensão imediata, é ruptura. Consciência ampliada não entrega paz instantânea, entrega deslocamento. Quem enxerga mais mundos percebe que nenhum deles é absoluto. Isso retira o chão das certezas fáceis e obriga o indivíduo a conviver com ambiguidade, complexidade e responsabilidade pelas próprias escolhas.
No fim, a coerência pode parecer descartável para muitos. Há quem fale de princípios, mas viva de mentiras. Quem confunda discurso com caráter, conveniência com verdade e esperteza com integridade. Mas o que define uma pessoa não é aquilo que ela afirma quando tudo está confortável, e sim as escolhas que ela defende quando a verdade confronta, quando expõe incoerências e quando custa algo real.
Eu valorizo quem defende a verdade mesmo quando ela confronta. Priorizar a honestidade quando ela quebra o ego, quando expõe fragilidades e quando retira vantagens fáceis é uma forma rara de riqueza. Porque nem tudo que parece real é verdade. E nem toda verdade vem para consolar. Algumas existem apenas para nos tornar responsáveis pelo mundo que escolhemos habitar, e pelas pessoas que escolhemos ser.
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