Cheirinho de infância

Crianças brincando ao ar livre em um dia de céu claro, soltando pipa, jogando futebol e construindo castelos de areia, cena que remete às memórias afetivas e ao cheirinho da infância.

Existem memórias que não chegam até nós como um filme com começo, meio e fim. Elas chegam quebradas. Fragmentadas. Vêm em flashes, em cortes bruscos, em sensações soltas, um cheiro que atravessa o tempo, um barulho distante, uma imagem sem moldura. A isso damos o nome de memória fragmentada. Não é falha. É defesa. O cérebro aprende a guardar a vida em pedaços quando a experiência é intensa demais, quando o coração ainda não sabe organizar o que sente. Por isso, em vez de histórias bem contadas, ficam emoções cruas.

O oposto disso seria uma memória contínua, coesa, organizada, aquela lembrança que conseguimos contar sem tropeçar, sem buracos, sem silêncios desconfortáveis. Mas a verdade é que quase ninguém tem isso quando o assunto é infância. Qual é a memória mais antiga que você tem? Que idade você tinha naquela época? Rebobinar essa fita não é tão simples quanto parece. Às vezes nem é claro se estamos lembrando de algo que realmente vivemos ou de uma fotografia antiga, ou ainda de um relato contado tantas vezes que acabou sendo incorporado como se fosse nosso.

A maioria das pessoas não se lembra dos três ou quatro primeiros anos de vida. Dos sete anos para trás, então, o que sobra é pouco. E mesmo esse pouco vem misturado. Mas ainda assim, algo ali é verdadeiro. Algo que não se explica, apenas se sente.

Foi pensando nisso que resolvi rebobinar. Voltar. Tocar em lembranças que o cotidiano, as responsabilidades e a vida adulta nos roubam sem pedir permissão. Porque antes de tudo isso, antes das cobranças, das contas, das pressões e das escolhas difíceis, eu fui apenas uma criança. E você também foi. Sonhadora. Elétrica. Curiosa. Desobediente, rsr. Pronta para experimentar tudo como se fosse a primeira vez.

Minha primeira memória mais nítida começa quando minha família se mudou para o bairro Santa Mônica, em Belo Horizonte. Eu tinha por volta de sete anos. A rua onde fomos morar parecia um universo inteiro condensado. Metade dela era de calçamento, aquelas pedras irregulares, tipo pé de moleque, que não prometiam muitas aventuras. A outra metade tinha asfalto. E aquilo… aquilo já fazia meu coração bater diferente.

O asfalto não era apenas chão. Era promessa. Era convite. Era cenário. Ali, antes mesmo de tocar numa bola, eu já enxergava campeonatos, finais históricas, gols decisivos narrados com emoção. Tudo ainda dentro da cabeça de um menino.

A cerca de quatrocentos metros de casa havia um campo de futebol. Naquele instante não houve dúvida nenhuma, eu tinha me mudado para muito perto do paraíso. A escola ficava a uns oitocentos metros. Tudo o que um garoto de sete anos precisava para viver, correr, sonhar e voltar para casa suado e feliz estava a poucos minutos de distância.

Meu pai, naquela época, trabalhava com transporte de passageiros. Minha mãe era dona de casa. Em 1987, eu e meus dois irmãos morávamos numa casa grande, com quintal na frente e nos fundos. Na frente havia um aquário que, na minha memória, sempre pareceu uma piscina. Nos fundos, um quintal enorme, com árvores e um pé de ameixa amarela, a nêspera, que fazia parte do cenário sem pedir destaque.

Mas o grande tesouro daquela casa era a laje.

Quem viveu aquela época sabe. Soltar papagaio, ou pipa, não era apenas uma brincadeira. Era disputa. Era estratégia. Era desafio. Era céu.

E foi com todas essas possibilidades que comecei a construir as melhores lembranças da minha infância.

Na rua onde eu morava, rua Janet Clair , moravam cerca de trinta crianças. Trinta. Idades parecidas, energia infinita, imaginação sem freio. Um exército. Um exército de vontades, ideias e desafios inventados na hora.

Jogávamos vôlei, queimada, rouba bandeira, pique-esconde. Às vezes não jogávamos nada. Apenas sentávamos em roda para contar piadas ou histórias de terror, aquelas que davam medo mais pelo clima do que pela história em si. Não havia limites claros. A rua era nossa.

Oséias, Mizael e Wagner
Oséias, Mizael e Wagner

Quando o assunto era futebol, os apaixonados subiam até aquele pequeno trecho de asfalto. Dois chinelos Havaianas viravam o gol perfeito, separados por mais ou menos três metros. Do outro lado, a mesma coisa. Pronto. Estava montado o estádio. Disputávamos o maior campeonato de todos, a pelada.

Todo brasileiro sabe o que é uma pelada. Era todo mundo descalço. A bola era a famosa dente de leite. Quem jogou com ela sabe. Nem o Roberto Carlos, ex-jogar profissional da seleção brasileira colocava mais curva numa bola do que um garoto de sete anos cheio de vontade.

E ali acontecia um milagre. Não pequeno. Um milagre enorme. O milagre da multiplicação. Começávamos com poucas crianças da rua e, de repente, surgiam meninos da rua de cima, da rua de baixo, da rua ao lado. Quem perdesse a partida, ficava na de fora, muito tempo na de fora. Muito mesmo.

E aí a mente mudava. Perder já não era opção.

As emoções ficavam à flor da pele. Da pele mesmo. Do dedão do pé esfolado. Da unha quebrada. Dos hematomas que só eram percebidos na hora do banho. Ali fiz meus melhores gols. Joguei meus campeonatos mais importantes. Dei canetas inesquecíveis. Apliquei chapéus que, na memória, ficaram gigantes.

Não havia juiz. Cada um decidia se era falta, pênalti ou lateral. Era justo? Nem sempre. Mas quem gritasse com mais força, com mais convicção, ganhava a razão.

E ali ríamos. Chorávamos. Brigávamos. E no fim do dia éramos campeões por um motivo simples, tínhamos sido felizes.

Há uma frase do filósofo Clóvis de Barros Filho que explica isso com precisão cirúrgica. Ele diz que “felicidade é um instante em que a gente queria que durasse para sempre”. E quando ouvi isso pela primeira vez, entendi imediatamente. Porque naquele asfalto improvisado, naquele gol feito de chinelo, naquele fim de tarde suado e empoeirado, tudo o que eu queria era que aquilo não acabasse nunca.

Em algum momento pensei, já somos profissionais do asfalto. Vou jogar no campo de terra. Era um campo grande, de terra fofa, poeira que denunciava de longe que havia jogo. E minha mãe… você não está entendendo. Ela já não gostava de futebol. Gostava menos ainda de sujeira. Filho sujo, roupa encardida, cabelo duro de poeira. Jogar ali era oficialmente proibido até eu completar uns onze anos.

Oficialmente,

Porque sempre existiam aqueles dias em que, quando percebíamos, já tinham se passado três horas de jogo. Até alguém gritar, acho que é sua mãe vindo ali. E naquele milésimo de segundo um filme inteiro passava na cabeça. Já estou aqui há horas? Minha roupa está suja? Meu corpo está sujo? Meu cabelo está sujo? Minha mãe não deixa eu jogar aqui. Aquela pessoa vindo é minha mãe? O que vai acontecer comigo? Castigo? Bronca? Apanhar? Será? Será? Será?

Quem viveu isso sabe. Quem não viveu não faz ideia do peso emocional desse caminho até em casa.

Ainda assim, ali estão alguns dos melhores registros da minha infância.

Com o fim de semana vinha a escola. E foi ali que fiz meu primeiro grande amigo, o Beto. Engraçado. Esquisito. Corajoso. Durante mais de dez anos fomos inseparáveis. Casa um do outro. Videogame. Futebol de rua, de casa, de campo, de quadra. Trabalhos escolares. Anos que passamos juntos. Anos que repetimos. Ríamos tanto que às vezes parecia impossível ainda sobrar tempo para conversar.

A infância parecia eterna. Mesmo assim, queríamos viver tudo agora.

E havia a laje, voce lembra que eu falei dela? A mais alta da rua. A melhor de todas para soltar papagaio. A vantagem era clara. Cortar a linha do outro era o objetivo. O céu ficava tomado. Mais de cem papagaios num único dia. Linhas cruzadas. Em segundos uma era cortada. E ali nascia a adrenalina.

Um papagaio cortado virava corrida. Confusão organizada. Todos olhando para cima, correndo sem direção, até porque naquela época não tinha tantos carros como agora, e o perigo mesmo era você correndo e olhando para cima atropelar alguém.

Mas a laje também era perigo. Olhar para cima podia significar cair. Por isso, éramos proibidos de subir. Proibição que funcionou. Por isso estou aqui escrevendo. Mas não se engane, subi muitas vezes. Bastava meus pais saírem.

E eu ali confortável no meu melhor lugar, até que, derrepente um garoto chegava no meu portão esbaforido gritando: sua mãe está chegando, ou seu pai está vindo,e em segundos surgiam decisões impossíveis. Desço agora? Não vai dar tempo. Arrebento a linha? Perco tudo. Jogo no lote do vizinho? Ele pode contar. Solto tudo e deixo ir embora?

Coração acelerado. Mente em guerra.

Então, no meio desses embates fortíssimos e da chegada iminente dos meus pais, eu decidia: vou arrebentar a linha e descer da laje o mais rápido possível… Ufa. Me safei, não fui pego. E, em algumas vezes, depois de viver perigosamente, literal e filosoficamente dentro da minha própria mente, voltava o garoto que me alertara da chegada dos meus pais e dizia: “acho que me enganei, não eram seus pais”, e eu vivia uma nova descarga de adrenalina misturada com fúria.

Essas são algumas memórias. Entre tantas outras.

Com o tempo, elas ficam fragmentadas. Incompletas. Às vezes precisamos de alguém do passado para nos ajudar a lembrar. Outras vezes basta um cheiro. Uma comida. Uma sensação. Uma emoção.

Quando nos tornamos adultos, cheios de responsabilidades e compromissos, esquecemos que um dia fomos apenas crianças. Que o maior compromisso ao acordar era fazer com que o dia fosse insuperável.

Eu escrevo isso para que você, ao ler, encontre também as suas memórias. Para que, em vez de olhar apenas para frente, onde tudo é incerto, possa olhar um pouco para trás e recarregar as energias.

Porque felicidade é isso. São esses instantes. Aqueles momentos simples, intensos e verdadeiros que a gente queria que durassem para sempre.

Para encerrar, deixo aqui também uma homenagem consciente. A reflexão que atravessa este texto dialoga diretamente com um pensamento do filósofo Clóvis de Barros Filho, no vídeo em que ele fala sobre felicidade como esses instantes que a gente queria que durassem para sempre. Este relato nasce da vida vivida, mas encontra palavras mais claras quando cruza com ideias que ajudam a nomear o que sentimos. Fica aqui minha dedicação e meu agradecimento, porque às vezes uma frase bem colocada nos ajuda a reconhecer aquilo que a memória já sabia, mas ainda não tinha conseguido dizer.https://www.instagram.com/reel/DT5Jk5tDdSi/


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6 comentários em “Cheirinho de infância”

  1. Júnia Nilan

    Que texto lindo!
    Adorei como você reviveu essas brincadeiras de rua e da laje com tanta vivacidade, o coração acelerado, as decisões impossíveis e o alívio misturado com fúria me transportaram direto pra infância. É uma bela reflexão sobre felicidade nos instantes simples, e a homenagem ao Clóvis de Barros Filho fecha com chave de ouro. Me fez sorrir e lembrar das minhas próprias aventuras. Perfeito pra recarregar a alma!

  2. Fortíssima história meu amigo !
    Que época maravilhosa nós vivemos !!
    Quantas coisas fizemos ,erradas ,certas e engraçadas !😂😂😂
    Dá para escrever um livro
    Falo para meu filho como éramos bom de bola ,e que a maioria desses jogadores de hoje não jogam nada !
    Abraço !!!

    1. Obrigado, Francis, pelas palavras. Ter amigos como você desde a infância é um privilégio, gente que ajuda a puxar a memória, reviver histórias, rir das loucuras e lembrar de quem éramos quando a vida era mais simples, mais intensa e mais verdadeira. Essas lembranças valem mais do que qualquer troféu. Abraço!

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