Entre a fé e a consciência, quando a religião deixa de libertar

Caminho iluminado simbolizando a relação entre fé e consciência

Entre a fé e a consciência, quando a religião deixa de libertar

A fé deveria ampliar a consciência, não reduzi-la. Essa afirmação não é uma concessão ao espírito do tempo, mas uma exigência do próprio evangelho quando levado a sério. A fé cristã nasce de um chamado à escuta, escutar Deus, escutar a realidade, escutar o outro e escutar a própria consciência. Quando essa escuta é silenciada, algo essencial se perde.

John Stott, em Ouça o Espírito, ouça o mundo: Como ser um cristão contemporâneo, insiste que o cristão fiel não é aquele que se isola do mundo nem aquele que se dissolve nele, mas o que vive na tensão responsável entre revelação e realidade. Para Stott, ouvir o Espírito sem ouvir o mundo gera alienação religiosa, e ouvir o mundo sem ouvir o Espírito gera perda de identidade cristã. A maturidade espiritual está justamente nessa escuta dupla, crítica e consciente. Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, de John Stott

Quando a religião passa a controlar pelo medo, pela culpa ou pelo silêncio imposto, ela deixa de cumprir sua função espiritual e se torna um mecanismo de poder. Nesse ponto, a fé deixa de formar consciências e passa a fabricar obediência. Stott alertava que a fé cristã nunca foi chamada a suprimir a razão ou a consciência, mas a iluminá-las. Uma fé que exige suspensão do pensamento não é fé bíblica, é medo sacralizado.

Questionar não é rebeldia, é maturidade. Pensar não é pecado, é responsabilidade. A própria Escritura nasce do diálogo, do conflito e da reflexão profunda sobre a experiência humana diante de Deus. Jó questiona, os salmistas protestam, os profetas confrontam sistemas religiosos e Jesus rompe com leituras que oprimem em nome da lei. O Novo Testamento mostra uma fé viva, que responde ao mundo real, não uma crença enclausurada em fórmulas.

Do ponto de vista teológico, John Stott sempre defendeu que a autoridade das Escrituras não elimina a responsabilidade da interpretação consciente. Ele afirmava que o cristão contemporâneo precisa pensar biblicamente sobre questões contemporâneas, não repetir respostas prontas para perguntas que ninguém mais está fazendo. Isso exige humildade intelectual, escuta atenta e coragem espiritual.

A espiritualidade que não suporta perguntas não forma pessoas livres, apenas seguidores condicionados. Seguidores que obedecem por medo de errar, de perder a salvação ou de serem excluídos. Esse tipo de formação produz culpa crônica, dependência emocional e fragilidade ética, algo amplamente estudado pela psicologia da religião. Sistemas religiosos baseados em controle tendem a enfraquecer a autonomia moral do indivíduo.

John Stott via a consciência cristã como um espaço sagrado de responsabilidade diante de Deus. Não uma consciência autônoma no sentido relativista, mas uma consciência desperta, informada pelas Escrituras e sensível ao sofrimento humano. Para ele, fidelidade a Cristo nunca significou cegueira moral ou silêncio diante das injustiças do mundo.

Entre a fé e a consciência não deveria haver oposição. O conflito surge quando a religião teme a consciência porque depende do controle. Onde a fé é segura, a consciência é bem-vinda. Onde a verdade é viva, as perguntas não ameaçam. A fé madura não precisa se proteger da realidade, ela a atravessa.

Ouvir o Espírito e ouvir o mundo é um chamado exigente. Ele desmonta certezas fáceis, confronta estruturas rígidas e expõe idolatrias religiosas. Mas é justamente nesse caminho que a fé deixa de ser instrumento de poder e volta a ser espaço de libertação. Onde a consciência é respeitada, a fé amadurece. Onde ela é sufocada, resta apenas adaptação, e adaptação não transforma, apenas mantém tudo como está.


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