Jesus além do sistema evangélico

Jesus com coroa de espinhos acolhendo pecadores fora do sistema religioso institucional

Como a apropriação do Reino destrói o Evangelho

Introdução

Jesus não criou o movimento evangélico. Nem católico, nem protestante, nem qualquer instituição religiosa organizada nos moldes que hoje conhecemos. Jesus anunciou o Reino de Deus. E o Reino, segundo o próprio Cristo, não pertence a grupos, estruturas ou elites espirituais. Ele irrompe na história, confronta poderes religiosos, desestabiliza certezas institucionais e revela o coração humano.

Este texto nasce de uma experiência concreta, dolorosa e comum a milhares de pessoas. Muitos encontraram Jesus dentro do movimento evangélico, mas adoeceram espiritualmente por causa do sistema. Jesus libertou, o sistema aprisionou. Jesus curou, o sistema culpabilizou. Jesus humanizou, o sistema ensinou a vigiar, julgar e excluir.

Não se trata de atacar a Igreja de Cristo, composta por gente simples, sincera e cheia de amor. Trata-se de confrontar um modelo religioso que sequestrou o Evangelho e passou a administrar quem é salvo, quem pertence a Deus e quem merece ou não o Reino.

Essa distorção não é nova. Ela atravessa a história bíblica e alcança seu ápice quando homens religiosos se colocam no lugar de Deus.


Capítulo 1 – O Reino de Deus não é propriedade institucional

Jesus foi explícito ao afirmar que seu Reino não pertence a este mundo (João 18:36). Ainda assim, ao longo da história, instituições religiosas insistiram em transformá-lo em território cercado, com regras humanas, filtros morais e critérios identitários.

Quando uma instituição passa a se enxergar como dona do Reino, ela assume o papel de porteira espiritual. Decide quem entra, quem sai e quem nunca pertenceu. Foi exatamente esse comportamento que Jesus confrontou nos líderes religiosos de seu tempo: “Ai de vocês, mestres da lei, porque fecham o Reino dos céus diante dos homens” (Mateus 23:13). “¹³ Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando”

O Reino nunca foi um clube de iguais. Ele começa pequeno, cresce silenciosamente e acolhe pessoas improváveis. Toda vez que o Reino é apropriado por um grupo, ele deixa de ser Reino e passa a ser sistema.


Capítulo 2 – Quando líderes pecadores se tornam juízes de Deus

O Novo Testamento afirma sem rodeios: todos pecaram e carecem da glória de Deus (Romanos 3:23). Ainda assim, líderes igualmente falhos assumiram o papel de árbitros espirituais. Decidem quem está salvo, quem está perdido, quem “tem Deus” e quem está fora da vontade divina.

Jesus advertiu com severidade: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados” (Mateus 7:1). A liderança cristã nunca foi chamada para substituir o tribunal de Deus, mas para apontar para Cristo.

Santo Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) enfrentou esse mesmo problema em sua época. Em A Cidade de Deus, ele afirma que a Igreja visível é um corpo misto, composto por justos e injustos, e que somente Deus conhece verdadeiramente os seus. Para Agostinho, a tentativa humana de separar definitivamente os salvos dos perdidos antes do tempo é soberba espiritual.

[https://pt.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona]


Capítulo 3 – Estêvão, o primeiro mártir e o ódio religioso

O livro de Atos apresenta um exemplo paradigmático do que acontece quando o sistema religioso se sente ameaçado. Estêvão não foi morto por negar Deus, mas por confrontar líderes religiosos que acreditavam ser os únicos representantes legítimos do Reino.

Atos 7 registra seu discurso, onde ele percorre a história de Israel e acusa os líderes de resistirem ao Espírito Santo, assim como seus pais haviam feito. O resultado não foi arrependimento, mas fúria. Estêvão foi apedrejado até a morte, tornando-se o primeiro mártir cristão.

O pecado de Estêvão foi não se submeter ao sistema. Ele não negou a fé, negou a exclusividade religiosa. Toda vez que alguém questiona o monopólio espiritual, o sistema reage com violência simbólica ou real.


Capítulo 4 – A falsa ideia de que Jesus morreu apenas por um grupo religioso

Uma das distorções mais graves do evangelicalismo moderno é a ideia implícita de que Jesus morreu apenas pelos que pensam, creem e vivem conforme determinado padrão religioso.

A Escritura afirma que Cristo morreu “pelos ímpios” (Romanos 5:6), não por um grupo moralmente superior. Ele morreu enquanto ainda éramos pecadores. Quando a Igreja decide por quem Jesus morreu, ela retira da cruz sua potência redentora e transforma a graça em privilégio.

Agostinho insistia que a graça precede qualquer mérito humano. Onde a salvação se torna recompensa por comportamento religioso, a cruz já foi esvaziada.


Capítulo 5 – O orgulho espiritual e a fabricação de inimigos

O ensino de que apenas “os nossos” serão salvos produz arrogância, medo e desprezo pelo outro. Pessoas passam a olhar vizinhos, familiares e colegas como condenados automáticos.

Jesus denunciou isso na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18:9–14). O religioso agradecia por não ser como os outros. O pecador clamava por misericórdia. Jesus afirma que apenas um saiu justificado.

Agostinho escreveu que o orgulho é o início de todo pecado, inclusive o religioso. Quando a fé produz superioridade moral, ela já se afastou do Cristo humilde.


Capítulo 6 – Misticismo, medo e controle da consciência

O sistema evangélico frequentemente substitui maturidade espiritual por misticismo. Tudo vira demônio, tudo vira brecha, tudo vira culpa. A fé deixa de libertar e passa a vigiar.

Paulo afirma que Deus não nos deu espírito de medo, mas de poder, amor e equilíbrio (2 Timóteo 1:7). Onde há terror constante, não há Evangelho.

Esse controle gera dependência emocional e infantilização espiritual. Pessoas vivem reféns de líderes que se colocam como mediadores exclusivos entre Deus e o fiel.


Capítulo 7 – Política, poder e manipulação religiosa

Quando líderes religiosos passam a orientar votos, decisões políticas e comportamentos civis em nome de Deus, cruzam uma fronteira perigosa.

Jesus se recusou a ser feito rei (João 6:15). O Reino que Ele anunciou não se impõe por coerção, mas por transformação interior. Agostinho já alertava que quando a Igreja busca dominar, ela deixa de testemunhar.


Capítulo 8 – Superficialidade espiritual e culto à performance

O sistema valoriza dons visíveis, discursos eloquentes e experiências espetaculares, mas ignora caráter, humildade e amor ao próximo. Jesus advertiu que muitos profetizariam em seu nome e ainda assim não seriam reconhecidos por Ele (Mateus 7:22–23). O critério do Reino nunca foi performance, mas fruto.

“²² Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?
²³ E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”


Capítulo 9 – Violência espiritual dentro da família

Um dos efeitos mais devastadores da religião adoecida é quando ela atravessa a porta de casa e se instala no coração da família. O que deveria formar lares mais humanos passou, em muitos casos, a produzir ambientes de medo, culpa e opressão espiritual. Zelo foi confundido com dureza. Autoridade foi confundida com controle. E fé foi usada como instrumento de dominação.

Pais, muitas vezes sinceros, foram ensinados a “corrigir” em nome de Deus, mas sem amor, sem escuta e sem discernimento. Tornaram-se carrascos dentro do próprio lar, acreditando que agressividade emocional era zelo espiritual. Cônjuges passaram a se julgar mutuamente, usando versículos como armas para controlar comportamentos, silenciar dores e invalidar sentimentos. Filhos cresceram aprendendo mais a temer a Deus do que a confiar n’Ele.

O apóstolo Paulo é direto ao tratar desse tema. Ele não apenas fala aos filhos, mas confronta os pais: “Pais, não provoqueis vossos filhos à ira, para que não se desanimem” (Efésios 6:4; Colossenses 3:21). Ou seja, existe uma forma de educação religiosa que não forma caráter, apenas produz revolta, medo e afastamento. Quando a fé gera ira, frustração e ressentimento dentro de casa, ela já se desviou do Evangelho.

A Escritura também corrige a forma como maridos e esposas se relacionam. Paulo jamais autorizou abuso espiritual ou emocional. Pelo contrário, ele chama o amor conjugal de sacrifício, dizendo que o marido deve amar a esposa “como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25). Cristo não oprime, não humilha, não controla pela força. Onde há opressão em nome da fé, Cristo não está sendo imitado.

Jesus, quando esteve entre nós, nunca impôs espiritualidade pela violência. Ele acolheu crianças, ouviu mulheres, chorou com amigos e confrontou apenas os sistemas que esmagavam pessoas. O Evangelho sempre humaniza. Onde a religião desumaniza, algo foi profundamente corrompido.

Lares adoecem quando Deus é usado como argumento final para silenciar diálogo. “Porque Deus mandou”, “porque a Bíblia diz”, “porque o pastor ensinou” se tornam frases que encerram conversas, anulam emoções e invalidam experiências. O resultado são famílias aparentemente religiosas, mas emocionalmente fragmentadas.

Violência espiritual não deixa marcas visíveis no corpo, mas produz feridas profundas na alma. Gera adultos inseguros, filhos ressentidos, casamentos frios e uma fé baseada no medo, não no amor. João é claro ao afirmar que “no amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo” (1 João 4:18).

Quando o Evangelho é vivido de forma saudável, ele cura a família. Quando é deturpado, ele a adoece. E qualquer fé que destrói o lar, ainda que cite a Bíblia, já não reflete o coração de Cristo.


Capítulo 10 – O Jesus dos Evangelhos e o Jesus do sistema

Existe uma distância cada vez mais perceptível entre o Jesus apresentado nos Evangelhos e o Jesus que muitos aprenderam a seguir dentro de sistemas religiosos. Não se trata de dois Cristos, mas de duas narrativas. Uma nasce da Escritura. A outra nasce da institucionalização da fé.

O Jesus dos Evangelhos acolhe os cansados, confronta os hipócritas e liberta os oprimidos. Ele chama pecadores para perto, senta-se à mesa com os rejeitados e reserva suas palavras mais duras não para quem erra, mas para quem usa a religião como instrumento de controle. Ele diz que veio para dar vida, e vida em abundância (João 10:10), não para aprisionar consciências.

Já o Jesus do sistema, muitas vezes apresentado nos púlpitos, é seletivo. Aproxima quem se enquadra, afasta quem questiona, ameaça quem diverge. Esse Jesus exige performance espiritual, obediência cega e submissão institucional, enquanto o Cristo bíblico chama para arrependimento, transformação interior e liberdade responsável. Onde o medo governa, a graça foi substituída por controle.

Nos Evangelhos, Jesus nunca coagiu ninguém a segui-lo. Ao jovem rico, Ele apenas revelou o apego do coração e permitiu que fosse embora (Marcos 10:21–22). No sistema religioso, partir é tratado como rebeldia, questionar é visto como pecado e pensar se torna ameaça. A fé deixa de ser resposta ao amor e passa a ser mecanismo de sobrevivência espiritual.

Santo Agostinho compreendeu esse perigo ainda nos primeiros séculos da Igreja. Para ele, a verdadeira Igreja não se define por estruturas visíveis, cargos ou poder, mas pelo amor que une os que pertencem a Cristo. Em seus escritos, Agostinho afirmava que onde não há amor, ainda que o nome de Cristo seja proclamado, Ele não está sendo realmente seguido. A Igreja, dizia ele, é o Corpo de Cristo quando vive a caridade, não quando exerce domínio.

Essa distinção é essencial. O Jesus do sistema precisa de inimigos para se sustentar. O Jesus dos Evangelhos transforma inimigos em próximos. O Jesus institucional se protege por regras rígidas. O Jesus bíblico se revela pelo serviço. Um constrói muros. O outro derruba barreiras.

Quando o nome de Jesus é usado para legitimar exclusão, humilhação e violência espiritual, já não se trata mais do Cristo revelado nas Escrituras, mas de uma caricatura moldada para manter estruturas. O problema não é seguir Jesus com seriedade, é confundir fidelidade com submissão a sistemas que já não refletem o Seu caráter.

Onde o amor desaparece, como alertava Agostinho, o nome de Cristo foi apenas usado. E onde Cristo é apenas usado, o Evangelho já foi substituído.


Conclusão

Voltar ao Cristo que liberta

Este texto não nasce do ressentimento, nem da rejeição à fé, mas de um despertar doloroso e necessário. Muitos passaram anos, às vezes décadas, presos em sistemas religiosos acreditando que isso era fidelidade a Deus. No caminho, perderam a leveza, a humanidade, a escuta e, muitas vezes, a própria alegria de seguir a Cristo.

Jesus nunca chamou pessoas para se tornarem guardiãs do Reino, mas testemunhas dele. O Evangelho não foi entregue a instituições para ser administrado, mas a homens e mulheres para ser vivido. Quando a fé se transforma em sistema de controle, ela deixa de libertar e passa a adoecer. Onde Cristo deveria curar, a religião passou a ferir.

O Evangelho não pertence ao movimento evangélico, nem a qualquer denominação. Ele pertence a Cristo. E Cristo continua chamando pessoas para fora de estruturas que tomaram o seu lugar, que falaram em seu nome, mas perderam o seu coração. Esse chamado não é para abandonar a Igreja, mas para resgatá-la do cativeiro da soberba, do medo e do poder.

A verdadeira Igreja nunca foi definida por muros, cargos ou títulos, mas por vidas transformadas pelo amor. Ela é sinal do Reino quando acolhe, confronta com graça e liberta consciências. Torna-se problema quando passa a se enxergar como dona da verdade e juíza da salvação.

Voltar ao Cristo que liberta é abandonar a ilusão do controle e recuperar a coragem de amar. É trocar o medo pela confiança, o julgamento pela misericórdia e o sistema pelo caminho. Que a Igreja volte a ser sinal do Reino, e nunca sua proprietária.


Texto por Oséias Sousa


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