O décimo primeiro concílio da história, conhecido como o Terceiro Concílio de Latrão, foi realizado no ano de 1179 d.C., em Roma. Neste ponto da história, a Igreja já não se encontra em um processo de desvio inicial, mas em um estado consolidado de distanciamento estrutural das Escrituras.
Se nos concílios anteriores ainda era possível falar em tentativas de correção, aqui a Igreja já opera plenamente como poder político, econômico e judicial. O Evangelho permanece nos textos, mas a prática cotidiana da instituição passa a contradizê-lo de forma sistemática.
O Concílio de Latrão III não inaugura abusos, ele os organiza, normaliza e legitima.
O contexto histórico do Concílio de Latrão III
O cenário do final do século XII é marcado por:
Cruzadas em pleno curso, com massacres legitimados religiosamente
Estrutura inquisitorial já em funcionamento, ainda que em expansão gradual
Uso recorrente de indulgências como instrumento espiritual e financeiro
Clero vivendo em privilégios, enquanto o povo vivia sob medo, miséria e ignorância bíblica
A Igreja já controla terras, exércitos, impostos e consciências. A fé cristã passa a ser apresentada não como caminho de salvação pela graça, mas como sistema de submissão à instituição.
Os gentios e os pobres, que no Evangelho são o centro da missão, tornam-se agora os principais alvos de exploração religiosa.
As questões centrais discutidas no Concílio de Latrão III
O concílio é convocado principalmente para lidar com cismas internos, disciplina clerical e definição de regras para eleições papais. Não há preocupação real com o retorno às Escrituras ou com a correção dos abusos estruturais.
As perguntas que dominam o concílio revelam sua natureza:
Como preservar o poder central da Igreja?
Como evitar disputas internas que enfraqueçam a autoridade?
Como reforçar a obediência do clero e do povo?
O Evangelho não é o critério central, a estabilidade institucional é.
As bases bíblicas utilizadas no concílio
A Escritura continua sendo citada, mas agora de forma claramente instrumental.
Um dos textos usados para justificar autoridade foi:
“Quem vos ouve, a mim me ouve” (Lucas 10:16).
Esse texto, originalmente missionário, é aplicado à obediência irrestrita à hierarquia.
Outro texto frequentemente evocado foi:
“Obedecei aos vossos guias” (Hebreus 13:17).
A obediência passa a ser apresentada como virtude máxima, independentemente da fidelidade desses líderes ao Evangelho.
Também aparece:
“Tudo seja feito com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40).
Mas a ordem defendida já não é a ordem do corpo de Cristo, e sim a ordem do poder.
Em contraste, textos centrais do Evangelho permanecem ignorados:
“Entre vós não será assim” (Mateus 20:26).
“Bem-aventurados os pobres” (Lucas 6:20).
“De graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10:8).
Esses textos confrontariam diretamente a prática da Igreja daquele período.
As decisões do Concílio de Latrão III
O concílio estabelece regras rígidas para eleições papais, fortalece o controle central, reafirma punições contra dissidentes e legitima medidas disciplinares severas.
Nada é feito para conter as Cruzadas.
Nada é feito para questionar indulgências.
Nada é feito para proteger os pobres da exploração religiosa.
Pelo contrário, o concílio fortalece um sistema que depende da ignorância bíblica do povo para se manter.
Os abusos contra os pobres e fracos
Aqui o distanciamento do Evangelho se torna impossível de negar.
Enquanto o clero acumulava riquezas, os pobres eram ensinados a:
Pagar por perdão por meio de indulgências
Temer a condenação eterna mediada pela Igreja
Aceitar sofrimento como vontade divina
Submeter-se sem questionar
A Inquisição, ainda que em expansão, já funcionava como instrumento de terror. Pessoas simples, analfabetas e sem acesso às Escrituras eram acusadas de heresia por discordar de práticas não bíblicas.
A Escritura afirma:
“O Senhor faz justiça aos oprimidos” (Salmos 103:6).
“Aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, repreendei o opressor” (Isaías 1:17).
A prática institucional, porém, fazia exatamente o oposto.
Pontos fortes do Concílio de Latrão III
Mesmo nesse cenário, é possível reconhecer aspectos pontuais:
Tentativa de reduzir conflitos internos
Alguma organização administrativa
Preocupação com continuidade institucional
Esses pontos mostram uma Igreja preocupada consigo mesma, não com o rebanho.
Pontos fracos e o colapso espiritual
Os pontos fracos, porém, são devastadores:
Substituição da autoridade bíblica pela autoridade institucional
Normalização da coerção religiosa
Espiritualização da violência
Exploração dos pobres em nome da fé
Silenciamento de qualquer retorno às Escrituras
Aqui, o cristianismo institucional já se encontra profundamente distante do Evangelho.
A Igreja diante da própria contradição
O Concílio de Latrão III revela uma Igreja que mantém a Bíblia em seus altares, mas não em sua prática. A Palavra é preservada como símbolo, não como autoridade viva.
A advertência bíblica permanece clara:
“Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:8).
“Pesadas cargas impõem aos homens” (Mateus 23:4).
Esses textos descrevem com precisão a realidade da Igreja medieval.
Um concílio que expõe o abismo
O décimo primeiro concílio não é apenas mais um evento histórico. Ele expõe o abismo entre o Evangelho e a instituição que afirma representá-lo.
A partir daqui, a Igreja já não pode alegar ignorância bíblica. O afastamento é consciente, sistemático e sustentado por poder.
O Evangelho continua sendo proclamado, mas não vivido. A fé continua sendo anunciada, mas não praticada. O nome de Cristo continua sendo invocado, mas o seu ensino é frequentemente negado.
Referência externa para validação histórica
Análise histórica do Terceiro Concílio de Latrão, seu contexto, decisões e impacto na consolidação do poder eclesiástico medieval, disponível na wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Terceiro_Conc%C3%ADlio_de_Latr%C3%A3o
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
