O décimo sexto concílio da história, conhecido como o Concílio de Constança, foi realizado entre os anos de 1414 e 1418. Este concílio marca um divisor de águas decisivo, não porque tenha restaurado o Evangelho, mas porque escancarou de forma irreversível a falência espiritual da Igreja institucional medieval.
Aqui, a tensão entre Escritura e poder deixa de ser silenciosa. A pressão se torna visível. O medo da perda de controle cresce. E, ao mesmo tempo, surgem homens que passam a confrontar a falsa igreja não com espadas, mas com teologia, Bíblia aberta e vida prática coerente.
O Concílio de Constança não tenta mais corrigir abusos, tenta silenciar vozes.
O contexto histórico do Concílio de Constança
No início do século XV, a Igreja vive uma crise sem precedentes.
Há três papas simultâneos, cada um reivindicando autoridade absoluta.
O papado está desacreditado politicamente e espiritualmente.
A Inquisição continua ativa.
As indulgências seguem explorando o povo.
A Bíblia permanece inacessível à maioria.
A instituição já não consegue sustentar a ideia de unidade espiritual. O concílio é convocado para resolver o chamado “Cisma do Ocidente”, mas, na prática, ele se torna um tribunal contra qualquer ameaça ao sistema.
A pergunta que move Constança não é “o que diz a Escritura?”, mas “como manter o poder?”.
As principais decisões do Concílio de Constança
Entre os temas centrais do concílio estão:
A deposição e reorganização do papado
A reafirmação da autoridade conciliar e papal
A condenação de teólogos considerados perigosos
A execução de líderes que defendiam o retorno às Escrituras
Não há qualquer movimento de arrependimento institucional. O Evangelho não é o critério. A estabilidade do sistema é.
As bases bíblicas usadas pelo concílio
Mais uma vez, a Escritura é usada de forma seletiva.
Para justificar a autoridade absoluta da instituição, são citados textos como:
“Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu” (Mateus 18:18).
“Quem vos ouve, a mim me ouve” (Lucas 10:16).
Esses textos são usados para afirmar que discordar da Igreja equivale a desobedecer a Deus.
Porém, textos centrais seguem ignorados:
“A tua palavra é a verdade” (João 17:17).
“Importa obedecer a Deus antes que aos homens” (Atos 5:29).
“O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17).
Esses textos ameaçam diretamente o edifício institucional construído.
O surgimento dos pré-reformadores como resposta espiritual
É justamente nesse ambiente de opressão que surgem vozes que já não pedem reforma administrativa, mas retorno ao Evangelho.
John Wycliffe, a Bíblia acima da Igreja
John Wycliffe defende algo revolucionário para sua época, a autoridade final pertence às Escrituras, não à instituição.
Ele critica:
O acúmulo de riquezas do clero
A venda de indulgências
A mediação sacerdotal como necessária à salvação
Wycliffe traduz a Bíblia para o inglês, convencido de que o povo precisa ter acesso direto à Palavra de Deus.
A Escritura que sustenta sua visão é clara:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Timóteo 3:16).
“Conhecereis a verdade” (João 8:32).
Para a Igreja, isso é inaceitável. Um povo com Bíblia é um povo fora de controle.
Jan Hus, a verdade acima da vida
Influenciado por Wycliffe, Jan Hus proclama que Cristo é o único cabeça da Igreja, não o papa.
Ele denuncia:
A corrupção moral do clero
A incoerência entre discurso e prática
O uso do medo como instrumento espiritual
Hus insiste que a verdadeira Igreja é formada pelos eleitos de Deus, não por uma hierarquia visível.
Ele ecoa o ensino bíblico:
“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
“Há um só mediador entre Deus e os homens” (1 Timóteo 2:5).
Convidado ao Concílio de Constança com promessa de salvo-conduto, Hus é traído, julgado e queimado vivo em 1415.
A Igreja mostra, sem disfarces, que prefere eliminar o mensageiro a ouvir a mensagem.
Jerônimo de Praga, fidelidade até o fim
Jerônimo de Praga segue o mesmo caminho. Intelectual brilhante, defensor público de Hus, ele inicialmente vacila sob pressão, mas depois retorna à confissão da verdade.
Antes de morrer, afirma que a Igreja traiu o Evangelho.
Sua fé encontra eco nas palavras do apóstolo:
“Combati o bom combate” (2 Timóteo 4:7).
“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça” (Mateus 5:10).
Jerônimo também é executado. A instituição elimina os sintomas, mas não a doença.
A pressão institucional e o medo da verdade
O Concílio de Constança revela que a Igreja já não se sustenta pela Palavra, mas pela força.
Tribunais
ameaças
prisões
fogueiras
são usados para preservar uma fé que já não é fé, mas sistema.
A Escritura denuncia:
“A verdade caiu nas praças” (Isaías 59:14).
“Amaram mais a glória dos homens” (João 12:43).
Essas palavras descrevem perfeitamente o espírito conciliar.
Pontos fortes do Concílio de Constança
Mesmo nesse cenário, podem ser apontados:
Resolução administrativa do cisma papal
Capacidade organizacional
Centralização do poder
Mas tudo isso serve apenas à manutenção da estrutura, não à glória de Deus.
Pontos fracos e a confirmação do afastamento definitivo
Os pontos fracos são devastadores:
Execução de homens fiéis às Escrituras
Supressão da verdade teológica
Negação prática da autoridade bíblica
Violência legitimada como zelo espiritual
Aqui, a ruptura com o Evangelho não é mais sutil. Ela é pública.
O impacto sobre os pobres e os gentios
Enquanto teólogos são queimados, o povo continua explorado.
Sem Bíblia
sem instrução
submisso ao medo
pressionado por indulgências
A Igreja fala em salvação, mas oferece submissão.
A Escritura, porém, afirma:
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).
Essa libertação começa a germinar fora da instituição.
Constança como o prenúncio inevitável da Reforma
O Concílio de Constança não impede a Reforma. Ele a torna inevitável.
Ao matar Hus, a Igreja planta sementes.
Ao silenciar Wycliffe, ela espalha suas ideias.
Ao queimar Jerônimo, ela prova que já não confia na Escritura.
A falsa igreja começa a ser combatida não por revoltas armadas, mas por teologia bíblica, consciência reformada e vida prática coerente.
O Evangelho não precisa de fogueiras para sobreviver. Ele sobrevive porque é verdade.
Referência externa para validação histórica
Análise histórica do Concílio de Constança, suas decisões, o julgamento de Jan Hus e o impacto do concílio no caminho da Reforma Protestante, disponível na Enciclopédia Britannica:
https://www.britannica.com/event/Council-of-Constance
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