Com o nono concílio, a história da Igreja entra definitivamente em um novo cenário. Já não estamos mais no período dos grandes debates cristológicos nem na definição dos fundamentos da fé. O nono concílio, conhecido como o Primeiro Concílio de Latrão, realizado em 1123 d.C. em Roma, acontece em um contexto onde a Igreja já exerce poder político, jurídico e militar.
Aqui, a distância entre a simplicidade do Evangelho e a prática institucional torna-se evidente. A fé cristã já não enfrenta apenas crises internas de interpretação bíblica, mas carrega o peso de séculos de acúmulo de autoridade humana, tradições não apostólicas e decisões que se afastam progressivamente das Escrituras.
Este concílio não inaugura esse processo, mas o confirma de forma explícita.
O contexto histórico do Concílio de Latrão I
O Primeiro Concílio de Latrão ocorre logo após a chamada Querela das Investiduras, um conflito direto entre a Igreja e o poder secular sobre quem tinha autoridade para nomear bispos e líderes eclesiásticos.
Ao mesmo tempo, o cenário europeu já estava profundamente marcado pelas Cruzadas. Guerras religiosas eram travadas sob o nome de Cristo, com promessas de perdão de pecados, recompensas espirituais e legitimação da violência.
A Igreja já não aparece apenas como comunidade de fé, mas como instituição governante, militarizada e economicamente estruturada.
As perguntas que estavam sobre a mesa já não eram teológicas no sentido bíblico, mas institucionais:
Quem controla a Igreja?
Quem legitima o poder espiritual?
Como preservar autoridade sobre reis, territórios e consciências?
Essas questões impactaram diretamente a vida dos gentios, que agora viviam uma fé mediada por medo, submissão e obrigações religiosas, muitas delas sem qualquer fundamento nas Escrituras.
As bases bíblicas evocadas no concílio
Mesmo nesse cenário, a Bíblia continuava sendo citada. Porém, sua função já não era moldar a Igreja, mas justificar estruturas já existentes.
Um dos textos frequentemente usados para sustentar autoridade clerical foi:
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18).
Esse texto passou a ser interpretado como base para um sistema hierárquico centralizado, muito além do contexto apostólico original.
Outro texto utilizado para reforçar submissão foi:
“Quem vos ouve, a mim me ouve” (Lucas 10:16).
Essa palavra, originalmente ligada à missão dos discípulos, passa a ser aplicada à obediência irrestrita à instituição.
Textos como este também apareciam:
“Tudo seja feito decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40).
A ordem, porém, já não era a ordem da edificação da Igreja, mas a ordem do controle institucional.
Em contraste, textos centrais do Evangelho permaneciam silenciosamente ignorados:
“O meu reino não é deste mundo” (João 18:36).
“Entre vós não será assim” (Mateus 20:26).
A tensão entre Escritura citada e Escritura vivida torna-se cada vez mais evidente.
As decisões do nono concílio
O Concílio de Latrão I confirma oficialmente a supremacia eclesiástica sobre nomeações, bens e estruturas da Igreja. Ele reforça o poder do clero, regulamenta disciplina interna e legitima práticas já consolidadas.
Não há aqui avanço doutrinário no sentido bíblico. O concílio atua como selo institucional sobre um sistema já distante da fé apostólica.
A Igreja deixa definitivamente de ser apenas guardiã da mensagem do Evangelho e assume o papel de autoridade política e moral sobre povos e nações.
Pontos fortes do Concílio de Latrão I
Mesmo nesse cenário, é possível reconhecer alguns elementos positivos:
A tentativa de limitar interferências políticas diretas
A busca por organização interna
O desejo de estabilidade institucional
A preservação formal de textos bíblicos e confissões antigas
Esses pontos mostram que não se tratava de abandono consciente da fé, mas de uma Igreja convencida de que proteger a instituição era proteger o cristianismo.
Pontos fracos e desvios evidentes
É aqui que o afastamento das Escrituras se torna explícito.
A fé cristã passa a conviver com práticas incompatíveis com o Evangelho:
Cruzadas, onde matar em nome de Cristo era tratado como mérito espiritual
Indulgências, onde perdão era associado a atos, pagamentos ou campanhas religiosas
Inquisição, que usava coerção, tortura e medo como instrumentos de “pureza doutrinária”
Centralização extrema, onde questionar a instituição era visto como rebelião contra Deus
Nenhuma dessas práticas encontra respaldo no ensino de Jesus ou dos apóstolos.
O Evangelho chama ao arrependimento, não à guerra santa.
Chama à graça, não à compra do perdão.
Chama à persuasão, não à coerção.
Aqui, o desvio já não é sutil. Ele é estrutural.
A Igreja diante do abismo entre Escritura e poder
O nono concílio mostra com clareza que a Igreja já não estava apenas interpretando a Bíblia de forma questionável, mas vivendo em contradição direta com ela.
Mesmo com a Escritura preservada em manuscritos
mesmo com credos corretos
mesmo com linguagem cristã
a prática se afasta do coração do Evangelho.
A advertência bíblica permanece clara:
“Examinai as Escrituras” (João 5:39).
“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Esses textos, que antes confrontavam heresias teológicas, agora confrontariam a própria instituição.
Um concílio que revela o ponto de ruptura
O Concílio de Latrão I não inaugura os grandes abusos da Idade Média, mas os legitima dentro de um sistema religioso que já se afastara das Escrituras.
A partir daqui, o cristianismo institucional passa a caminhar cada vez mais distante da fé simples, bíblica e centrada na graça. O Evangelho continua sendo proclamado em palavras, mas frequentemente negado em práticas.
Esse concílio marca um ponto de ruptura silencioso, onde a Igreja já não mede suas decisões prioritariamente pela Escritura, mas pela manutenção do poder.
Referência externa para validação histórica
Análise histórica do Primeiro Concílio de Latrão, seu contexto, decisões e impacto no desenvolvimento do poder eclesiástico medieval, disponível na Enciclopédia Britannica:
https://www.britannica.com/event/First-Lateran-Council-1123
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