O oitavo concílio da história, Constantinopla IV e a tensão entre autoridade espiritual e poder institucional

Ilustração do Quarto Concílio de Constantinopla em 869–870 d.C., com bispos reunidos em assembleia, a cidade de Constantinopla ao fundo e a imagem de Maria com o menino Jesus em destaque, simbolizando a tensão entre autoridade institucional e devoção visual

Após Niceia II, a Igreja entra em um novo estágio histórico. Os grandes debates cristológicos já haviam sido definidos, as imagens haviam sido oficialmente aceitas, e o cristianismo agora se encontrava profundamente entrelaçado com estruturas políticas, jurídicas e hierárquicas. É nesse contexto que ocorre o oitavo concílio da história, conhecido como o Quarto Concílio de Constantinopla, realizado entre 869 e 870 d.C.

Este concílio marca uma mudança sensível no foco dos debates. A questão central já não é diretamente quem é Cristo ou como a fé deve ser expressa, mas quem tem autoridade para decidir, governar e disciplinar dentro da Igreja.

Aqui, o problema deixa de ser apenas teológico e passa a ser claramente institucional.

O problema que levou ao Concílio de Constantinopla IV

O concílio surge a partir de um conflito envolvendo liderança e legitimidade espiritual, especialmente em torno da figura do patriarca Fócio de Constantinopla. A disputa envolvia nomeações e deposições de líderes, acusações mútuas de irregularidade e, sobretudo, a crescente tensão entre as sedes eclesiásticas do Oriente e do Ocidente.

As perguntas que estavam em jogo eram profundas, ainda que menos explícitas:

Quem tem autoridade final para governar a Igreja?
A liderança espiritual pode ser definida por decisões políticas?
Até que ponto a disciplina institucional reflete o espírito do Evangelho?

Embora essas questões pareçam internas, elas impactavam diretamente a vida dos gentios. A fé cristã, antes anunciada como libertadora e centrada em Cristo, passava a ser experimentada cada vez mais como submissão a estruturas e decisões distantes da vida cotidiana das comunidades.

As bases bíblicas evocadas no concílio

Mesmo em debates fortemente institucionais, a Escritura continuava sendo invocada como fundamento.

Um dos textos frequentemente usados para sustentar a necessidade de ordem e autoridade foi:

“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40).

Esse versículo era interpretado como base para justificar decisões disciplinares e hierárquicas dentro da Igreja.

Outro texto recorrente foi:

“Obedecei aos vossos guias e sede submissos, pois velam por vossas almas” (Hebreus 13:17).

A liderança eclesiástica passou a ser apresentada como guardiã da fé, reforçando a ideia de obediência institucional como virtude espiritual.

Também aparecia, de forma implícita, a autoridade apostólica:

“Quem vos ouve, a mim me ouve” (Lucas 10:16).

Esse texto era usado para associar a obediência aos líderes eclesiásticos à fidelidade ao próprio Cristo.

Ao mesmo tempo, textos que relativizam o poder humano permaneciam presentes, ainda que menos enfatizados:

“Um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos” (Mateus 23:8).

A tensão entre esses textos nunca foi plenamente resolvida.

As principais decisões do oitavo concílio

O Concílio de Constantinopla IV condena Fócio, reafirma decisões disciplinares anteriores e fortalece a centralização da autoridade eclesiástica. O concílio reforça a ideia de que a unidade da Igreja depende da submissão a decisões conciliares e à hierarquia reconhecida.

Do ponto de vista institucional, o concílio busca estabilidade. Do ponto de vista espiritual, ele revela uma Igreja cada vez mais preocupada em preservar ordem e controle.

Pontos fortes do Concílio de Constantinopla IV

Entre os aspectos positivos, podem ser destacados:

A preocupação com a unidade da Igreja
O esforço para manter disciplina e coerência institucional
A tentativa de evitar fragmentações doutrinárias
A busca por continuidade histórica da fé

Esses elementos mostram que a Igreja não agia movida apenas por interesses pessoais, mas por um desejo real de preservar o que entendia como fé verdadeira.

Pontos fracos e sinais de afastamento progressivo

Ao mesmo tempo, este concílio evidencia um deslocamento importante. A fé passa a ser cada vez mais mediada por cargos, decisões administrativas e autoridade jurídica.

O Evangelho, que nasce chamando à conversão e à fé, começa a ser vivido dentro de uma lógica de obediência institucional. A Escritura continua presente, mas agora frequentemente usada para legitimar estruturas de poder, não para confrontá-las.

Aqui, de forma sutil, percebe-se o aprofundamento de um caminho que levará a um cristianismo fortemente centralizado, no qual a Igreja se entende cada vez mais como instituição governante e cada vez menos como comunidade peregrina.

A Igreja diante do risco do poder religioso

O oitavo concílio ensina algo decisivo. O ser humano não se afasta do Evangelho apenas quando o nega, mas também quando o administra como sistema.

Mesmo com a Bíblia aberta
mesmo com boas intenções
mesmo buscando unidade

o poder espiritual pode se transformar em poder humano.

A Escritura adverte:

“Não domineis sobre os que vos foram confiados, antes tornando-vos exemplos do rebanho” (1 Pedro 5:3).

Esse princípio, embora conhecido, torna-se cada vez mais difícil de sustentar à medida que a Igreja se estrutura como autoridade política e jurídica.

Um concílio que revela mais do que define

O Concílio de Constantinopla IV não acrescenta novos pilares doutrinários à fé cristã. Seu valor histórico está em revelar o estado da Igreja naquele momento, uma fé já consolidada teologicamente, mas tensionada pelo peso das próprias estruturas que construiu.

A história mostra que o afastamento do espírito do Evangelho não acontece por abandono da Escritura, mas pelo uso da Escritura para sustentar sistemas que passam a confiar mais na autoridade humana do que na ação viva de Deus.

Referência externa para validação histórica

Análise histórica do Quarto Concílio de Constantinopla, seu contexto, decisões e impacto nas relações entre Oriente e Ocidente, disponível na Enciclopédia Britannica:
https://www.britannica.com/event/Fourth-Council-of-Constantinople-869-870


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