Eu vou falar de algo que eu considero decisivo para nossa época, e eu vou falar com firmeza, porque eu já vi isso ferir gente demais. Existe um tipo de religião que não forma discípulos, ela forma dependentes. E a ferramenta preferida desse modelo é o medo, medo de perder a salvação, medo de “estar fora da cobertura”, medo de questionar, medo de discordar, medo de não receber milagre, medo de “bloquear Deus” por não seguir um método.
Eu aprendi a reconhecer esse mecanismo porque ele sempre deixa marcas. A pessoa fica ansiosa, culpada, supersticiosa, presa em ciclos de promessas e ameaças. Ela vive de “campanhas”, “chaves”, “atos proféticos” e rituais que prometem segurança espiritual, mas entregam apenas alívio curto. E quanto mais alívio curto, mais dependência. Isso não é fé madura, é condicionamento religioso.
Quando eu penso em exemplos históricos contemporâneos desse tipo de ambiente, eu não tenho como ignorar a influência de Benny Hinn sobre milhões de pessoas no mundo, especialmente pela expansão de um modelo de televangelismo associado a curas, prosperidade e linguagem de milagre. Eu não estou julgando intenções do coração, eu não tenho esse acesso. O que eu avalio são frutos, métodos, mensagens e impactos públicos, e esses são observáveis.https://en.wikipedia.org/wiki/Benny_Hinn
Há críticas antigas e amplamente documentadas ao modo como parte desse movimento transformou milagres em espetáculo, fé em performance e contribuição financeira em “semente” necessária para receber bênçãos. E o próprio Benny Hinn, anos depois, chegou a afirmar publicamente que estava “corrigindo” sua teologia e que “bênçãos e milagres não estão à venda”, reconhecendo excessos e distorções no discurso de prosperidade. Esse ponto, para mim, é revelador, porque mostra que não se trata de um detalhe menor, é estrutura. Quando alguém precisa declarar que milagres não estão à venda, é porque, em algum nível, milhões foram ensinados a agir como se estivessem.
O problema teológico aqui é direto, o evangelho não é um mercado de trocas espirituais. Deus não é uma máquina de recompensa, e fé não é moeda. A Bíblia não ensina que a bênção de Deus é comprada por contribuição financeira, nem que a doença é sempre resultado de falta de fé, nem que sofrimento é prova automática de pecado oculto. Esse tipo de ensino empobrece a teologia, distorce a Escritura e, pior, culpa os feridos.
O problema moral é ainda mais sério, quando você atrela o favor de Deus à capacidade de alguém “acionar” uma promessa por meio de práticas e doações, você cria um sistema que tende a explorar vulneráveis. Quem está doente, desesperado, endividado, fragilizado, se agarra em qualquer promessa. E, se a promessa falha, o sistema quase sempre encontra um culpado, a própria pessoa. Faltou fé, faltou pureza, faltou fidelidade, faltou semente, faltou decreto, faltou submissão. Esse é o tipo de religião que sempre vence, porque até quando perde, ela faz a pessoa acreditar que a culpa é dela.
E há um problema pessoal, o impacto na identidade. A pessoa começa a medir sua espiritualidade pelo resultado imediato. Se prospera, Deus aprovou. Se sofre, Deus rejeitou. Se não foi curada, falhou. Isso destrói a maturidade espiritual. A fé bíblica não é um talismã contra sofrimento, ela é uma âncora em meio ao sofrimento. A fé bíblica não promete um caminho sem dor, ela promete um Cristo presente, um Deus soberano, e uma esperança que não depende de resultados imediatos.
Eu não estou dizendo que Deus não cura. Eu creio que cura. Eu não estou negando oração ousada. Eu oro. Eu não estou apagando o sobrenatural. Eu afirmo. O que eu rejeito é transformar o sobrenatural em ferramenta de manipulação. O que eu rejeito é vender esperança em troca de submissão e dinheiro. O que eu rejeito é criar um teatro religioso onde o medo é combustível e a consciência é silenciada.
Agora, eu não quero apenas criticar. Eu quero oferecer ferramentas práticas, porque uma consciência desperta não vive de indignação, ela vive de discernimento.
Primeira ferramenta, o teste do evangelho. Toda mensagem precisa ser confrontada com o centro, Cristo, cruz, arrependimento, graça, santidade. Se a cruz some e a prosperidade vira foco, algo está errado. Se o pecado vira detalhe e o sucesso vira promessa, algo está errado. Se Cristo vira um meio para “melhorar minha vida” e não o Senhor que transforma minha vida, algo está errado.
Segunda ferramenta, o teste da Escritura, não de versículos soltos. Muita gente manipula a Bíblia com recortes. A consciência cristã precisa aprender a ler contexto, gênero, propósito, e principalmente a totalidade do conselho de Deus. Qualquer teologia que não suporte leitura completa da Bíblia, inclusive textos sobre sofrimento, disciplina, perseverança e santificação, é uma teologia frágil.
Terceira ferramenta, o teste do sofrimento. A teologia verdadeira não entra em colapso diante da dor. Ela não acusa a vítima automaticamente. Ela não transforma doença em sentença. Ela não transforma tragédia em falha de fé. Uma fé madura consegue chorar, consegue esperar, consegue permanecer. Se a teologia só funciona quando tudo vai bem, ela é uma teologia de conveniência.
Quarta ferramenta, o teste do dinheiro. Onde há promessa espiritual atrelada a contribuição, eu acendo alerta. A Bíblia fala de generosidade, fala de sustento ministerial, fala de cuidado com pobres, mas o evangelho não vira comércio. Transparência, prestação de contas, simplicidade, ética, são marcas de maturidade. Se tudo gira em torno de “semente” para receber retorno, a consciência precisa perguntar, isso é evangelho ou é técnica de arrecadação?
Quinta ferramenta, o teste da autoridade. Líderes podem ter autoridade, mas autoridade cristã não é autoritarismo. Onde há ameaça espiritual para impedir perguntas, onde há intimidação religiosa, onde há medo de discordar, onde há expulsão simbólica de quem questiona, ali existe sistema, não discipulado.
Sexta ferramenta, o teste do fruto. Jesus disse que árvores são reconhecidas por frutos. E eu aprendi a observar frutos que não aparecem no palco, aparecem na vida. Pessoas estão ficando mais humildes, mais éticas, mais maduras, mais responsáveis, mais conscientes, ou estão ficando mais ansiosas, mais culpadas, mais supersticiosas, mais dependentes, mais infantis? O fruto denuncia a raiz.
Quando eu olho para as críticas que cercaram movimentos de cura e prosperidade por décadas, e olho para o fato de que o próprio Benny Hinn chegou a sinalizar revisão teológica sobre o tema da prosperidade e da “venda” de bênçãos, eu enxergo um alerta para toda a igreja, não um caso isolado. Porque o problema não é apenas um nome, o problema é uma mentalidade, a mentalidade de que a fé é uma técnica para controlar Deus, e não uma entrega para confiar em Deus.
E aqui eu afirmo algo que eu carrego como convicção, a verdadeira libertação vem do conhecimento, e não de artimanhas espirituais. Conhecimento da Escritura, conhecimento do evangelho, conhecimento de Deus, conhecimento do coração humano. Quando a pessoa cresce em conhecimento, ela para de ser manipulada por fórmulas. Ela reconhece truques. Ela identifica chantagens. Ela percebe quando o medo está sendo usado para produzir obediência.
Eu sei que muita gente se assusta quando alguém fala com firmeza sobre isso. Mas eu prefiro a firmeza que protege do que o silêncio que adoece. Eu não tenho prazer em atacar pessoas, meu foco é desarmar mecanismos. E eu digo com serenidade, quando uma mensagem precisa de medo para se sustentar, ela já perdeu a essência do evangelho. O evangelho sustenta coragem, responsabilidade e esperança, não pânico permanente.
Eu me coloco nesse lugar como alguém que lê, que estuda, que observa, que escuta, que discerne, e que não foge de responder quando alguém me pergunta. Não porque eu seja dono de todas as respostas, mas porque eu sei onde a resposta precisa estar, na Escritura, no evangelho, na tradição cristã séria, na maturidade que não precisa de espetáculo para existir. Eu não quero pessoas fascinadas por mim, eu quero pessoas libertas do medo, com consciência desperta e fé ancorada no que é verdadeiro.
No fim, o que eu defendo é simples, fé que liberta não vende milagres, fé que liberta não culpa o ferido, fé que liberta não transforma Deus em método, fé que liberta não treina dependência. Fé que liberta forma consciência, fortalece caráter e conduz a Cristo, com reverência, com seriedade e com liberdade interior.
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