Quando o poder se torna fim, a imoralidade vira método

Arte conceitual mostra figuras do Renascimento e líderes modernos sendo manipulados por fios em uma cidade contemporânea, simbolizando como a busca pelo poder transforma a imoralidade em método político

Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.
Essa frase, repetida tantas vezes a ponto de se tornar quase decorativa, carrega um peso que raramente é enfrentado com a seriedade que merece. Não se trata apenas de um aviso moral ou de um lembrete escolar, trata-se de um diagnóstico profundo sobre a fragilidade humana diante do tempo, da memória e das narrativas. A ignorância histórica não é neutra, ela é ativa, ela produz efeitos concretos, ela transforma sociedades inteiras em massas vulneráveis, facilmente conduzidas por discursos simples, promessas vazias e líderes sem escrúpulos.

Ignorância histórica não é ausência de informação, é terreno fértil para o autoritarismo

Quando o ser humano perde o contato com a história, perde também a capacidade de reconhecer padrões. Ele passa a viver cada evento como se fosse inédito, cada crise como se fosse única, cada líder como se fosse um salvador inesperado. A ausência de repertório histórico e literário empobrece o pensamento, encurta o horizonte moral e reduz a política a um jogo emocional. Povos sem memória não avaliam processos, apenas reagem a estímulos. E quem controla os estímulos controla o povo.

A leitura histórica e literária não serve apenas para informar, ela forma consciência. Ela cria anticorpos contra o engano, contra a manipulação, contra o fascínio pelo poder bruto. Sem esse lastro, a humanidade se torna presa fácil de narrativas cuidadosamente construídas para justificar violência, arbitrariedade e dominação. Narrativas não são apenas histórias, são instrumentos de poder. Quando bem usadas, constroem civilizações, quando mal utilizadas, multiplicam a barbárie.

Narrativas não apenas explicam o mundo, elas decidem quem manda nele

Ao longo da história, regimes autoritários nunca se sustentaram apenas pela força física. Eles sempre precisaram de uma história para contar, de um inimigo para apontar, de uma promessa para vender. A força domina corpos, a narrativa domina mentes. E é justamente nesse terreno que as ideias de Nicolau Maquiavel encontram solo fértil, atravessam séculos e permanecem assustadoramente atuais.

Quando a moral deixa de ser limite, o poder passa a ser fim

Nicolau Maquiavel, filósofo e diplomata florentino do Renascimento, não pode ser compreendido fora de seu contexto histórico. A Itália do século XV e início do XVI era um mosaico de cidades-estado em constante conflito, marcada por guerras, traições, disputas familiares e interferências estrangeiras. Florença, em especial, era o palco onde política, arte, religião e poder se entrelaçavam de forma intensa. Foi nesse ambiente que Maquiavel observou o comportamento humano longe das idealizações morais e decidiu descrevê-lo como ele via, e não como gostaria que fosse.

[Maquiavelbiografia e contexto histórico]

Sua obra mais conhecida, O Príncipe [Maquiavel], escrita por volta de 1513, não é um manual de virtude, mas um tratado cru sobre o exercício do poder. Nela, Maquiavel sugere que o governante eficaz não pode se limitar às exigências da moral tradicional. Ele afirma que, para manter o Estado, o príncipe deve aprender a não ser bom quando a situação exigir. A virtude, nesse contexto, não é moral, é funcional. O bem deixa de ser um valor absoluto e passa a ser aquilo que preserva o poder.

Maquiavel não descreveu monstros, ele descreveu homens no poder

Em O Príncipe, Maquiavel rompe com séculos de pensamento político cristão, que associava o bom governo à virtude moral, à justiça e ao temor de Deus. Para ele, o governante deve parecer virtuoso, mas não necessariamente sê-lo. A aparência importa mais que a essência. A moral torna-se uma ferramenta, não um limite. Essa ideia, simples e devastadora, abre caminho para uma nova forma de pensar a política, onde fins justificam meios, desde que o resultado seja a estabilidade do poder.

Outra obra fundamental é Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, onde Maquiavel analisa a República Romana como modelo político. Aqui, ele demonstra admiração pela disciplina, pela força institucional e pela capacidade de Roma de usar violência de forma estratégica para preservar o Estado. Embora defenda uma república forte, o princípio permanece o mesmo, a moral não é um freio absoluto, ela pode ser sacrificada em nome da sobrevivência política.

[ Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio]

Florença foi o laboratório onde a ética perdeu espaço para a eficácia

Em História de Florença, Maquiavel registra os conflitos internos da cidade, especialmente o papel da família Médici, que alternava momentos de poder e exílio. O texto revela como alianças, traições e manipulações eram práticas comuns, e como o poder raramente se sustentava pela virtude, mas pela astúcia. Já em A Arte da Guerra, Maquiavel defende a necessidade de um exército forte e disciplinado, controlado pelo Estado, reforçando a ideia de que a força é um elemento essencial da política.

[ A Arte da Guerra]

Essas obras, lidas em conjunto, sugerem algo inquietante, o poder não se mantém por bondade, mas por controle, medo e cálculo. Para Maquiavel, o erro não está em usar meios imorais, mas em usá-los mal. O problema não é a crueldade, é a crueldade mal administrada. Essa lógica, quando absorvida por líderes, instituições e movimentos, gera consequências profundas.

O poder não se mantém pela bondade, mas pelo controle

Durante sua vida, Maquiavel foi duramente criticado. A Igreja Católica, que exercia enorme poder político e moral, viu em suas ideias uma ameaça direta à ordem cristã. Seus escritos foram colocados no Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros proibidos. Pensadores ligados à tradição cristã reagiram com veemência. Tomás de Aquino, anterior a Maquiavel, já defendia que a política deveria estar subordinada à lei moral e à lei divina. Para Aquino, um governo injusto não era apenas ilegítimo, era pecado.

[Tomás de Aquino]

Girolamo Savonarola, frade dominicano que atuou em Florença pouco antes de Maquiavel escrever O Príncipe, representava o extremo oposto do maquiavelismo. Ele pregava arrependimento, moralidade pública e submissão a Deus. Para Savonarola, a decadência política era fruto direto da decadência moral. Seu confronto com os Médicis e sua execução pública mostram o choque entre duas visões de mundo, uma centrada na virtude cristã, outra no realismo político.

[Savonarola]

Após Maquiavel, outros filósofos combateram suas ideias. Erasmo de Roterdã criticou a separação entre moral e política, defendendo que o governante deveria ser exemplo ético. Mais tarde, no século XX, Hannah Arendt analisou os regimes totalitários e denunciou a banalização do mal, mostrando como a suspensão da moral em nome de objetivos políticos produz sistemas desumanos. Jacques Maritain, filósofo católico, também atacou o maquiavelismo moderno, defendendo que a política sem ética se transforma em tirania.

[Erasmo de Roterdã]
[Hannah Arendt]
[Jacques Maritain]

Quando a ética é descartada, a barbárie ganha método

Por outro lado, as ideias de Maquiavel encontraram eco e desenvolvimento em diversos pensadores e líderes. Thomas Hobbes, embora não fosse um defensor explícito da imoralidade, compartilhou da visão pessimista da natureza humana e da necessidade de um poder forte para conter o caos. Para Hobbes, o Leviatã deve ter autoridade quase absoluta para garantir a ordem.

[Thomas Hobbes]

Friedrich Nietzsche, em outro registro, rompeu com a moral cristã tradicional e exaltou a vontade de poder. Embora não fosse um pensador político no sentido clássico, sua crítica à moral dos fracos foi utilizada por regimes autoritários para justificar dominação. Carl Schmitt, jurista alemão do século XX, defendeu a soberania baseada na decisão e na exceção, aproximando-se perigosamente do pensamento maquiavélico ao justificar a suspensão da lei em nome do Estado.

[Nietzsche]
[Carl Schmitt]

Quando o maquiavelismo deixa os livros e veste uniforme

Essas ideias encontraram aplicação prática extrema no fascismo. Benito Mussolini [Mussolini], líder do fascismo italiano, era leitor declarado de Maquiavel. Ele via em O Príncipe um manual aplicável à política moderna. Mussolini compreendeu que o poder não se sustenta apenas pela coerção, mas pela construção de uma narrativa nacionalista, pela criação de inimigos internos e externos, e pela mobilização emocional das massas.

[Fascismo Italiano]

O fascismo não nasceu do nada. Ele é fruto de uma longa evolução onde a moral foi sendo progressivamente relativizada. Desde o Renascimento, os limites cristãos foram sendo substituídos por um pragmatismo político. O temor de Deus, que antes funcionava como freio, deu lugar à razão de Estado. A virtude cedeu espaço à eficácia. O resultado foi um terreno fértil para regimes que colocam o poder acima de tudo.

Toda ditadura começa como uma narrativa salvadora

No século XX, essa lógica se espalhou pelo mundo. Ditaduras modernas operam segundo princípios semelhantes, ainda que com roupagens diferentes. Cuba, Venezuela, Coreia do Norte [Ditaduras modernas] e outros regimes utilizam narrativas revolucionárias, nacionalistas ou ideológicas para justificar repressão, censura e miséria. Em todos esses casos, a manutenção do poder é o objetivo supremo. A moral, a liberdade e a dignidade humana são sacrificadas no altar da estabilidade política.

Esses regimes compreendem algo essencial, controlar a narrativa é tão importante quanto controlar o exército. A história é reescrita, os fatos são distorcidos, os opositores são desumanizados. O povo, privado de informação e educação crítica, passa a defender seus próprios opressores. A barbárie se multiplica não apenas pela violência física, mas pela adesão mental.

Quando o entretenimento ensina que vencer vale mais que ser justo

Essa lógica não está restrita à política explícita. Ela permeia a cultura, o entretenimento e o cotidiano. A série House of Cards [House of Cards] é um exemplo emblemático. O protagonista, Frank Underwood, encarna o maquiavelismo moderno. Ele mente, manipula, trai e elimina obstáculos com frieza calculada. A série não apresenta isso como exceção, mas como regra do jogo político. O sucesso do personagem reside justamente em sua disposição de ir até o fim, custe o que custar.

O problema não é apenas retratar essa realidade, mas normalizá-la. Quando o público passa a admirar personagens que triunfam pela imoralidade, algo se desloca no imaginário coletivo. A ideia de que vencer é mais importante do que ser justo se infiltra silenciosamente. A cultura passa a reforçar aquilo que a política já pratica.

O Brasil não sofre por falta de leis, sofre por excesso de cinismo institucional

No mundo contemporâneo, movimentos políticos, econômicos e sociais frequentemente abandonam qualquer referência moral em troca de poder, fama e dinheiro. A lógica do vale tudo se impõe. O sucesso justifica o método. A ética torna-se um discurso ornamental, usado apenas quando conveniente. Essa mentalidade atravessa partidos, igrejas, empresas e instituições.

O Brasil não está fora desse processo. Pelo contrário, ele é um caso emblemático. Grandes esquemas de corrupção se sucedem sem fim. A classe política brasileira tem um custo altíssimo, salários, benefícios, privilégios e blindagens jurídicas que a afastam completamente da realidade do povo. Enquanto isso, a população trabalha, paga impostos e sustenta um sistema que pouco retorna em forma de justiça social ou serviços de qualidade.

A blindagem institucional garante que poucos sejam responsabilizados. A impunidade se torna regra. A narrativa muda, os discursos se adaptam, mas o núcleo permanece o mesmo, a manutenção do poder e dos privilégios. O povo, sem força, sem representação real e muitas vezes sem acesso a uma formação crítica sólida, assiste a tudo com indignação episódica, logo substituída por cansaço e resignação.

O preço do poder sem moral sempre recai sobre o povo

Desde o Renascimento, trocamos progressivamente a moralidade pela imoralidade funcional. Os limites cristãos, que antes organizavam a vida pública, foram sendo descartados como ingênuos ou ultrapassados. No lugar, colocamos a banalização do imanente, o aqui e agora, o interesse imediato. A bondade foi substituída pela troca de favores. A política tornou-se um campo de guerra permanente.

Hoje, a geopolítica fala abertamente em conflito, sanções, dominação e força. A linguagem moral quase desapareceu. A história mostra que quando pessoas sem escrúpulos chegam ao poder, o resultado é sempre o mesmo, cerceamento de liberdades, fome, miséria e medo. Isso não é opinião, é constatação histórica.

A história não falha, ela apenas é ignorada

A história não mente. Ela registra padrões. Os ensinos de Maquiavel são palpáveis em muitos líderes no Brasil e no mundo. Muitos cidadãos não fazem ideia do quão dispostos esses líderes estão a perpetuar suas vontades acima de qualquer custo. Quem não conhece o passado não reconhece os sinais. Quem não lê a história vive refém do presente.

Conhecer a história é uma bênção. É libertador. Ela oferece recursos para identificar os déjà vus que se repetem sob novas máscaras. Pessoas que leem, que estudam, que compreendem os ciclos históricos vivem com menos ilusões, mas com mais lucidez. Elas sabem que a raça humana é capaz de grandeza, mas também de dissimulação extrema.

Há personagens que ultrapassam seu próprio tempo. Mesmo mortos, continuam ativos por meio de suas ideias. Nicolau Maquiavel é um deles. Suas palavras continuam ecoando em palácios, parlamentos, quartéis e gabinetes. Enquanto suas ideias forem aplicadas sem resistência moral, a história continuará se repetindo. E o preço, como sempre, será pago pelos mesmos, o povo.

Texto por Oséias Sousa

Fontes e referências
O Príncipe, Nicolau Maquiavel
Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Nicolau Maquiavel
História de Florença, Nicolau Maquiavel
A Arte da Guerra, Nicolau Maquiavel
Suma Teológica, Tomás de Aquino
Textos e sermões, Girolamo Savonarola
Elogio da Loucura e escritos políticos, Erasmo de Roterdã
Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt
O Homem e o Estado, Jacques Maritain
Leviatã, Thomas Hobbes
Além do Bem e do Mal, Friedrich Nietzsche
O Conceito do Político, Carl Schmitt
Wikipedia, verbetes históricos e biográficos
Revista Exame, análises políticas e geopolíticas


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