Nossa vida é feita de fases e de épocas, e elas não são a mesma coisa.
As fases moldam quem somos por dentro.
As épocas moldam o mundo ao nosso redor.
Uma constrói a identidade.
A outra constrói o cenário.
E é do encontro entre essas duas que nasce aquilo que chamamos de vida.
Existe uma diferença silenciosa, mas profunda, entre quem somos e quem seremos.
Quem somos agora é resultado direto das experiências que nos atravessaram, das escolhas que fizemos, das perdas que suportamos, das alegrias que vivemos sem saber que um dia sentiriam saudade de nós.
Quem seremos nasce todos os dias.
Nas pequenas decisões.
Na forma como lidamos com o tempo.
Com as pessoas.
Com o momento presente.
Quem nasceu nos anos 80 carrega uma marca invisível.
Crescemos em uma época em que o tempo tinha peso, cheiro, som.
Não havia internet.
Não havia urgência constante.
Não havia a possibilidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo.
Se você estava em casa, você estava em casa.
Corpo, mente e alma ocupavam o mesmo espaço.
Hoje isso parece estranho, quase ingênuo.
Mas naquela época era apenas a vida acontecendo.
Acorde comigo em um sábado de 1990.
São sete da manhã.
O dia começa indo à padaria.
Leite de saquinho, aquele que deixava a caneca marcada de gordura.
Cinco pães franceses, três de doce, margarina.
O café da manhã é simples.
Leite com Toddy, Quick ou café puro.
A casa inteira acordada, sem pressa, sem distrações.
Depois do café da manhã, duas horas de desenhos animados quase sem interrupção.
Não havia excesso de estímulos.
Não havia escolha infinita.
A mente descansava.
As músicas de abertura pareciam a própria felicidade.
E talvez fossem mesmo.
O tempo desacelerava.
Era possível esquecê-lo.
Perto do meio-dia vinha o almoço.
Bife com batata frita.
Arroz.
Feijão.
Suco Tang, aquele pozinho mágico que rendia dois litros sem açúcar.
Toda casa tinha a jarra certa, com a marcação exata.
Almoço feito, o dia parecia enorme.
A tarde inteira estava à nossa disposição.
Encontrar os amigos era um ritual sagrado.
Ninguém ligava para ninguém.
Não havia mensagens.
Bastava abrir o portão.
E ali, como uma coincidência feliz, todos surgiam ao mesmo tempo.
O sorriso era automático, porque desde a noite anterior já existia saudade.
Cada um trazia algo.
Um trazia a bola.
Outro, a peteca.
Outro, o baralho do truco.
Bolinha de gude.
Pipa.
Corda.
Histórias exageradas.
Piadas repetidas.
Por volta das três da tarde, a rua se transformava em um universo inteiro.
Hoje eu me pergunto como um espaço tão pequeno oferecia tantas possibilidades.
Talvez porque estávamos inteiros nele.
O som da tarde era o som da felicidade.
Risadas.
Gritos.
Passos correndo.
Discussões que duravam segundos.
Tudo era intenso porque tudo era presente.
Não existia distração paralela.
Não existia outra tela competindo pela atenção.
Existia apenas o agora.
Quem viveu aquela época viveu algo único.
Não éramos desconectados do mundo.
Havia tecnologia.
Havia informação.
Mas não havia excesso.
Para viver bastava uma coisa, presença.
Estávamos cem por cento ali.
E o tempo, curioso como era, passava devagar.
Às sete da noite vinha o banho.
O jantar.
E a ansiedade pelo encontro das oito.
Uma hora separados já parecia tempo demais.
Às vezes brincávamos.
Às vezes apenas sentávamos na calçada e conversávamos.
Momentos simples que só mais tarde descobrimos serem mágicos.
Por volta das dez da noite, as mães vinham buscar.
Mesmo que a casa estivesse a poucos metros.
E se não viessem, não voltaríamos.
Quantos campeonatos de futebol improvisados cabiam em um único sábado.
Quantos torneios de peteca.
Quantas histórias.
Em um só dia vivíamos a infância inteira.
Nossos amigos eram reais.
A alegria tinha rosto.
Tinha toque.
Tinha calor.
A felicidade não era algo visto.
Era algo vivido.
Com o passar dos anos, aprendemos um novo jeito de existir.
Hoje podemos estar em muitos lugares ao mesmo tempo.
O corpo fica em casa.
A mente vai para o trabalho.
Para o futuro.
Para o problema que ainda nem aconteceu.
Para muitas coisas isso foi avanço.
Mas para aquilo que mais nos falta hoje, presença verdadeira, houve um retrocesso silencioso.
Quantas vezes estamos todos no mesmo ambiente, mas ninguém está realmente ali.
Quantas vezes precisamos repetir uma frase porque o outro está fisicamente presente, mas mentalmente ausente.
E assim vamos atravessando os dias sem saboreá-los.
Agora imagine uma segunda-feira de uma criança em 1990.
Seis da manhã, o despertador toca.
Padaria.
Café rápido, mas não apressado.
Às seis e quarenta, saída para a escola, a pé.
Pelo caminho, os grupos se formam naturalmente.
Às sete, a sala cheia.
Quarenta crianças barulhentas, vivas, curiosas.
Professores envolvidos.
Não apenas ensinando, mas conduzindo descobertas.
Às nove e quinze, o recreio.
Quarenta e cinco minutos que pareciam uma eternidade.
Dava tempo de jogar.
Conversar.
Observar.
Rir.
Esquecer até de lanchar.
Depois, a última aula voava.
Às onze e meia, a rua ganhava cor, barulho e vida.
No caminho de volta, os planos da tarde já estavam feitos.
Às três da tarde, a rua novamente.
Cumprimentos como se não nos víssemos há dias.
Pequenas novidades já eram motivo de festa.
Não sonhávamos com grandes melhorias.
Qualquer novidade parecia um parque encantado.
Uma praça.
Uma quadra.
Um espaço novo.
Isso bastava.
Nossos pais eram heróis.
Havia segurança.
A vida parecia organizada.
Dava tempo de tudo.
Ir bem na escola era quase a única exigência.
E tudo que fugia da rotina era celebrado.
Aos domingos, a visita aos primos.
Alegria sem aviso.
Brinquedos novos.
Histórias novas.
Tios e tias como guardiões da comida diferente e do carinho extra.
Às vezes, depois do almoço, o parque de diversões.
O coração acelerado.
A adrenalina.
Os gritos.
Famílias juntas.
Presentes.
Inteiras.
Chegávamos em casa cansados.
O corpo exausto.
Mas a mente viva.
Havia uma sensação de completude difícil de explicar.
Hoje sabemos, inclusive pela ciência, que essas experiências deixaram marcas profundas.
Pesquisas em psicologia mostram que memórias construídas em contextos de atenção plena e vínculos afetivos fortes são mais duradouras e mais associadas à sensação de bem-estar ao longo da vida.
Estudos sobre nostalgia indicam que lembrar de momentos assim não é apenas saudosismo.
É um recurso emocional que fortalece a identidade, reduz a solidão e aumenta a percepção de sentido.
Autores que estudam atenção e presença mostram que o excesso de estímulos fragmenta a experiência humana.
Enquanto a vivência focada no agora reorganiza a mente e acalma o sistema emocional.
O mundo moderno ampliou possibilidades.
Mas cobrou um preço alto.
Vivemos conectados, mas ausentes.
Planejamos tanto o amanhã que esquecemos de viver o agora.
Sofremos por antecipação.
Perdemos sabores.
Conversas.
Silêncios.
E a vida vai passando enquanto estamos ocupados demais para percebê-la.
Talvez viver bem não seja voltar no tempo.
Talvez seja recuperar aquilo que o tempo não deveria ter levado.
Presença.
Inteireza.
Atenção.
Olhar nos olhos.
Estar onde o corpo está.
É preciso viver o hoje.
Apenas o hoje.
Sem pressa.
Sem promessas.
Sem distrações.
Apenas o hoje.
Se eu soubesse que aqueles dias passariam, eu teria aproveitado ainda mais.
Mas hoje eu sei.
Sei que os dias bons passam.
E até os dias ruins também.
Por isso aprendi a viver com mais presença.
A aproveitar ao máximo cada instante bom.
Cada conversa.
Cada riso.
Cada silêncio compartilhado.
E talvez eu seja assim desde criança.
Sempre senti saudade dos meus amigos e da minha família, mesmo estando perto.
Hoje, perto ou distante, continuo sentindo.
Porque são vocês que dão vida aos meus dias.
São vocês que fazem o tempo valer a pena.
Se esse texto tocou você de alguma forma, talvez não seja por acaso.
Talvez ele tenha o rosto de alguém que fez parte da sua história.
Se for assim, compartilhe com essa pessoa.
Às vezes, lembrar juntos também é uma forma de viver o hoje.
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