Vivemos em realidades diferentes, mesmo no mesmo mundo

Fragmentos de rostos humanos refletidos em espelhos quebrados flutuando no espaço, simbolizando múltiplas percepções da realidade em um universo de narrativas.

Eu vou te fazer uma pergunta que parece simples, mas não é.
O que é mais importante, a verdade ou a realidade?

À primeira vista, a resposta parece óbvia. A verdade.
Mas quanto mais eu observo as pessoas, suas histórias, seus conflitos e suas memórias, mais eu percebo que, na prática, quem governa nossas decisões não é a verdade objetiva, é a realidade que se formou dentro de nós.

A verdade é o fato como aconteceu.
A realidade é o modo como esse fato foi introjetado, filtrado, sentido e reinterpretado emocionalmente.

Pensa em algo simples.
Uma pessoa agride a outra. Esse é o fato. Essa é a realidade objetiva.
Mas a verdade do agressor é uma.
A verdade do agredido é outra completamente diferente.
Ambos viveram emoções, motivações e estados internos distintos. O mesmo evento gerou universos internos diferentes.

E é aqui que muita gente se confunde. Achamos que discordamos sobre fatos, quando na verdade discordamos sobre realidades internas.

Esse fenômeno fica ainda mais claro nas relações próximas. Casais que estão juntos há décadas contam a mesma história de formas diferentes. Um começa a narrar e o outro interrompe dizendo, “não foi bem assim”. E não é mentira. Para cada um, aquela foi a verdade vivida. A realidade objetiva talvez nem esteja totalmente acessível a nenhum dos dois.

Isso revela algo profundo.
Nós não vivemos apenas no mundo físico. Vivemos em mundos internos, construídos pela memória, pela emoção, pela narrativa que contamos a nós mesmos sobre o que vivemos.

É por isso que a ideia de multiverso sempre foi tão poderosa na ficção. Não apenas como mundos paralelos externos, mas como metáfora do que acontece dentro da consciência humana. Cada pessoa habita um universo simbólico próprio. Dois indivíduos podem olhar o mesmo acontecimento e sair dali vivendo em realidades incompatíveis.

Dante Alighieri entendeu isso muito antes da psicologia moderna. Em A Divina Comédia, inferno, purgatório e paraíso não são apenas lugares, são estados de consciência. Cada personagem está exatamente onde sua interioridade o colocou. A travessia de Dante não é geográfica, é existencial. Ele atravessa mundos porque atravessa a si mesmo.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri

E aqui vem algo ainda mais desconcertante.
Se a verdade é a forma como um fato foi introjetado em mim, então, em certo sentido, eu posso mudar meu passado. Não o fato, mas a realidade que ele exerce sobre mim hoje.

Quando eu revisito uma memória, quando amadureço emocionalmente, quando ganho consciência, eu reorganizo aquele evento dentro de mim. O passado não muda, mas o peso que ele tem muda. E quando isso muda, minha vida muda.

É por isso que duas pessoas podem carregar o mesmo trauma e seguir caminhos completamente diferentes. Não porque viveram realidades distintas, mas porque construíram verdades internas distintas a partir do mesmo fato.

O Multiverso Infinitoo nasce exatamente dessa compreensão. Não existem apenas muitos mundos lá fora, existem muitos mundos dentro. E quem nunca atravessa sua própria narrativa acaba prisioneiro dela, defendendo sua verdade como se fosse a única realidade possível.

No fim, não é o mundo que está dividido.
São as consciências que habitam universos paralelos, sem perceber que a travessia começa dentro.


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